Humberto Cardoso afirma que Inpe é o próprio atraso dos projetos espaciais

entrevista: Conservadorismo e descompromisso com prazos seriam os fatores determinantes

Humberto Cardoso afirma que Inpe é o próprio atraso dos projetos espaciais

O Eng. Dr. Humberto Pontes Cardoso trabalhou durante 20 anos no INPE, tendo chefiado a então Divisão de Estrutura e Mecânica - DEM (hoje, Divisão de Mecânica Espacial e Controle - DMC) no período em que Marco Antonio Raupp era o diretor do instituto.

Por Shirley Marciano

Há 15 anos está na iniciativa privada, atuando junto às empresas que fornecem equipamentos para os satélites do INPE, e, por ter tido essa experiência em ambos os “lados”, consegue ter uma visão de conjunto do Programa Espacial Brasileiro - PEB, por vezes bastante crítica, e também sobre a forma como vêm sendo conduzidos seus projetos.

Segundo seu ponto de vista, o INPE é o principal agente para os recorrentes atrasos nos programas de satélites, sobretudo porque o Instituto é muito conservador e avesso a riscos.

Avalia que o Programa Espacial Brasileiro precisa ser melhorado, e aponta o projeto do satélite de telecomunicações como retrocesso no que diz respeito à total ausência de transferência de tecnologia para o país.

Perguntado, afirma categoricamente que não há nenhum tipo de lobby por parte das empresas, mas defende um diálogo entre as partes, empresa e governo, para que os projetos tenham continuidade, cumpram prazos e efetivamente tornem-se competitivos no mercado internacional, pois hoje, de acordo com ele, as empresas têm tido muito prejuízo e o governo não tem alcançado efetivamente seus objetivos.

Dr. Humberto é graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp (1978), mestrado pelo ITA (1983) e doutorado na UFSC (1996), ambos em Eng. Mecânica, com especialidade em Ciências Térmicas.

Como foi sua trajetória como engenheiro do INPE e quais foram os fatores que o incentivaram a ir para a iniciativa privada?
Entrei no INPE em 1979 e trabalhei lá durante 20 anos. Fui para o Canadá em 1984 pela Missão Espacial Completa Brasileira – MECB, que era o programa para fazer os dois satélites SCDs, que seriam lançados no VLS. Quando voltei, em 1985, foi a época em que o Raupp assumiu como diretor, então fui nomeado como chefe da Divisão de Estrutura Mecânica – DEM. Fiquei nesta função por um ano.

Também coordenei a equipe de Controle Térmico de Satélites, quando implantamos o Laboratório de Térmica, executamos o projeto térmico do SCD1 e SCD2 e desenvolvemos um software de análise térmica (PCTER). Também criamos um programa de pesquisa tecnológica visando ao atendimento de demandas futuras. Em paralelo, participei do Conselho Departamental e fui eleito representante dos funcionários no Conselho Assessor da Engenharia Espacial. Ajudei a fundar a Associação dos Funcionários do INPE e o SindCT.

Em 1991, fui fazer doutorado em Santa Catarina-SC devido ao embate político com o então diretor do INPE, Márcio Barbosa. A nossa convivência ficou insustentável e eu preferi o exílio.

No final de 1996, depois de concluir o doutorado, fui convidado pelo Dr. Ghizoni a trabalhar na empresa Equatorial, onde me envolvi em vários projetos de desenvolvimento tecnológico financiados pela Fapesp e pela Finep. Um dos produtos gerados é o SATER - Software Comercial de Análise Térmica, que utilizo até hoje em meus projetos. No final de 1997, desliguei-me definitivamente do INPE, aderindo ao PDV do governo federal. De 2003 para cá, passei a gerenciar projetos de grande porte na empresa.

O senhor acha que houve mudanças nas atividades das divisões de engenharia do INPE comparando-se com o tempo em que estava lá? Seria verdadeiro afirmar que elas estariam hoje perdendo espaço para a iniciativa privada?
Essa é uma interpretação equivocada, pois foram transferidas para a indústria as atividades de projeto e fabricação de equipamentos para satélites, mas obviamente as pesquisas não.

O INPE precisa se reinventar e deixar essas preocupações de que as empresas estão invadindo sua área. Tem que ir atrás de conceitos novos, que são as pesquisas tecnológicas fundamentais. Deve fazer estudos e gerar protótipos, e a indústria continuar gerando produtos, com liberdade para inovar, criando um ciclo no qual exista complementação entre um e outro.

O que está esvaziando as divisões, a meu ver, é a falta absoluta de uma política espacial e de novas contratações. O nosso programa de satélite é caótico, não tem começo, meio, nem fim. Em um momento você faz um satélite de coleta de dados, em outro você vai fazer um satélite de sensoriamento remoto com a China e aborta o satélite de sensoriamento da MECB, que mesmo tendo sido fabricado, nunca foi lançado. Depois faz uma cooperação com a Nasa para lançar pelo Ônibus Espacial uma câmera (CIMEX), que seria comprada da Aerospatiale Francesa.

Por um impasse, devido a questões de segurança entre a empresa e a Nasa, o projeto é interrompido e creio que até hoje está sendo discutido na Justiça. Tivemos também o acordo com a Nasa para participarmos da construção da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Depois de muita negociação e muito dinheiro gasto, desistimos de participar e trocamos nossa participação pelo treinamento de um astronauta. Tivemos ainda o SACI, tocado internamente num clima de guerra, e que infelizmente não chegou a operar em órbita. Atualmente temos a PMM que padece da falta de uma carga útil. Essa falta de foco desarticula tudo.

O senhor tem uma pequena empresa de Engenharia e Informática e também coopera dentro de uma grande empresa, a Equatorial Sistemas. Qual a sua visão sobre o Programa Espacial Brasileiro – PEB, enquanto empresário?
Atualmente estou envolvido no projeto do CBERS 3 e 4 para desenvolvimento da câmera WFI. A questão que angustia os empresários do ramo é a falta de continuidade dos projetos.

Para exemplificar, imagine que você organiza uma empresa para projetar, fabricar e testar uma câmera, e, depois de entregue, terá que esperar cerca de 10 anos até conseguir outro contrato equivalente. Com todo esse tempo é natural que tudo se esvazie e a consequência é ter que recomeçar a partir do zero.

Como o processo de desenvolvimento tecnológico se dá pelo acúmulo de conhecimento, as empresas perdem a chance de aperfeiçoar seus processos e, o mais grave, ficam limitadas na sua capacidade de inovar, tornando-as pouco competitivas.

Em 30 anos de PEB, nenhuma empresa conseguiu gerar um produto espacial competitivo no exterior. Nos contatos que fizemos com potenciais clientes estrangeiros, as perguntas mais frequentes foram: “Este equipamento é qualificado em voo?”, “Qual é o histórico de voo deste equipamento?”. As respostas em geral foram “ainda não voou” ou “está em sua primeira missão”. Trocando em miúdos, ninguém quer um produto que ainda não se qualificou em voo, e isso significa ter voado com sucesso em várias missões por um número razoável de anos.

Veja o que está acontecendo com a Opto Eletrônica, que desenvolve três câmeras para o INPE (duas para o CBERS e uma para a PMM). Hoje ela está em grande dificuldade. Isto ocorre porque o programa era para durar cinco anos, mas está sendo realizado em sete anos e meio, e a empresa tem que arcar com gastos excedentes, que se originam na necessidade das empresas manterem suas equipes por um tempo 50% maior pelo mesmo preço contratado junto ao INPE.

Observe que a mão de obra representa de longe o maior custo num projeto como este, uma vez que o fornecimento dos componentes é responsabilidade do INPE.

Sobre a questão do atraso do CBERS 3 e de toda a polêmica gerada, qual a sua opinião?
O problema dos conversores DC/DC importados da americana MDI, componentes que geraram toda a polêmica do atraso do lançamento do CBERS3, poderia ter sido resolvido há dois anos, quando os primeiros componentes falharam ainda durante os testes do Modelo de Qualificação da WFI.

Acontece que por mais de um ano o INPE ficou desconfiado que eram as empresas que estavam usando mal os componentes e demoraram muito para enfrentar o problema. Somente no final de 2012 que o INPE reconheceu que o problema era de fabricação e de projeto dos componentes.

A bem da verdade é que a escolha da MDI para o fornecimento destes componentes se deu por falta de opção, uma vez que os outros fornecedores internacionais mais conceituados estavam impedidos de fornecê-los, devido ao embargo do International Traffic in Arms Regulations – ITAR.

É bom explicar também que a informação sobre os problemas com a empresa MDI só chegaram ao nosso conhecimento depois da compra efetuada, não havendo, portanto, forma de ter previsto que isso poderia acontecer. Por outro lado, também é verdade que nós propusemos usar uma solução de circuitos discretos que dispensaria o uso destes componentes, mas a proposta não foi aceita pelo INPE. Em minha opinião, estes acontecimentos revelam duas grandes fragilidades do nosso programa espacial: gestão e componentes. O ponto falho da gestão do programa pelo INPE está na avaliação e gerenciamento dos riscos envolvidos nas várias decisões que foram tomadas ao longo do projeto.

Numa análise de riscos para tomada de decisão devem ser considerados parâmetros, tais como custos, prazos (atrasos ou antecipação), perda ou ganho de desempenho ou qualidade etc.

Entretanto, para o INPE, a questão do prazo sempre pareceu irrelevante nas tomadas de decisão. Com isso o cronograma foi sistematicamente afetado nas decisões de gerenciamento de projeto, o que, por conseguinte, penalizou fortemente as empresas. Outro aspecto que me parece evidente na postura do INPE é uma grande aversão ao risco. As decisões ao longo do projeto foram marcadas por um excesso de conservadorismo, impossibilitando que a empresa em vários momentos adotasse uma solução ou procedimento inovador.

Creio que este quadro se acentuou devido ao papel duplo desempenhado pelo INPE. Ou seja, ele é cliente e fornecedor de componentes ao mesmo tempo. Assim, ele é responsável pelo atraso na entrega destes itens, mas ao mesmo tempo é quem aprova ou não o trabalho realizado pela empresa. Se forem detectados problemas, o atraso fica compartilhado. Há, portanto, um evidente conflito de interesses.

Por fim, existe a questão das especificações do projeto, que de tão detalhadas impedem propostas de soluções inovadoras por parte da empresa. No caso da WFI, por exemplo, o detector CCD, principal componente da câmera, foi especificado e comprado pelo INPE, engessando todo o restante do projeto. A questão dos componentes está ligada ao nível de qualificação exigido nos programas tocados pelo INPE, e grande parte destes componentes está sob embargo do ITAR.

O senhor considera que o projeto de desenvolvimento do satélite para telecomunicação é um avanço?
É um avanço do ponto de vista de se ter uma empresa “prime contractor” no país (caso da Visiona, joint-venture entre a Embraer e a Telebrás); entretanto, é um retrocesso se houver a avaliação de que é a compra de uma caixa preta, que nem mesmo será integrada no Brasil. É uma volta ao ano de 1983, quando se adquiriu o BrasilSat do Canadá.

Há afirmações de pessoas que trabalham no INPE de que hoje há um lobby das empresas junto a Agência Espacial Brasileira – AEB para desenvolvimento e continuidade de projetos, a exemplo do que teria ocorrido para aprovação da versão 2 da PMM, ou seja, não qualificou a primeira, mas já comprou a segunda. Qual a sua visão sobre o assunto?
Sobre a PMM, se a compra foi ensejada com o objetivo puro e simples de atender demandas das empresas não acho correto, principalmente por não se ter a certeza de que irá voar, já que a primeira PMM ainda não foi qualificada. Mas, sinceramente, não acredito que exista lobby, pois as empresas hoje passam por grandes dificuldades e não têm conseguido o amparo necessário para sobreviverem, haja vista o exemplo da Opto Eletrônica. Até acho que deveria haver lobby, ou melhor, um diálogo mais aberto entre a AEB e as empresas, pois na atual conjuntura as empresas ficam em uma situação muito difícil.

Creio que deveria ter um cronograma bem definido e transparente para ter continuidade nos projetos, até mesmo para a boa saúde do PEB. A reclamação geral das empresas é a de que o INPE é extremamente lento e burocrático e, portanto, perde a chance de achar soluções mais baratas, rápidas e melhores. Parece que há uma certa acomodação, pois não se fixam nem prazos e nem metas.

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