Lobby de empresários força AEB a adquirir novo satélite

dinheiro público: entenda porque a compra da versão 2 da PMM foi precipitada
Lobby de empresários força AEB a adquirir novo satélite


A Agência Espacial Brasileira – AEB, em novembro de 2012, realizou a compra da segunda versão da Plataforma Multimissão - PMM, sem ter finalizado a primeira.

O fato gerou especulação em torno do tipo de relação que há entre os caciques do governo e as empresas, já que o curso natural de um projeto novo seria a espera da conclusão do primeiro, com finalização dos testes individuais de qualificação, integração e lançamento, qualificando-o no espaço, para então adquirir o segundo satélite.

A decisão sobre a compra teria ocorrido depois de um workshop realizado em Brasília, em setembro de 2012, quando na ocasião as empresas teriam feito lobby junto à AEB, alegando que precisariam dar continuidade ao projeto, caso contrário, não conseguiriam manter a equipe técnica dentro das empresas correspondentes. Logo depois, em novembro, houve a compra, conforme relatou uma fonte que pediu para não se identificar.

A PMM passa hoje por um grave problema com relação aos prazos, e já custa para o país cerca de R$ 250 milhões, fora os custos com viagens e diárias. A primeira versão da PMM terá o satélite Amazônia-1 como carga útil. Seu objetivo será cobrir os “pontos cegos” não imageados pelo satélite CBERS 2B, que já se encontra fora de operação, identificando áreas de desmatamento na Amazônia.

No entanto, ao que tudo indica, o CBERS 3, mesmo com seus atrasos, será lançado bem antes do Amazônia-1. Apesar de o satélite Amazônia 1 ter fugido do seu objetivo inicial, ele ainda tem sua importância, porque é a primeira vez que se projeta e se produz alguns subsistemas complexos de satélites, como o computador de bordo e o sistema de controle de atitude, importados da Argentina, e o sistema de propulsão, desenvolvido por empresas nacionais.

Um satélite desse porte, com cerca de 500 kg, não poderia demorar mais do que cinco anos para ficar pronto; entretanto, o contrato já se arrasta por mais de 12 anos. De acordo com seu último cronograma, só ficará pronto em 2016, caso não haja novos imprevistos.

Técnicos do INPE apontam a falta de comprometimento por parte das empresas como principal problema pelo atraso. Atribuem como fator determinante a quantidade de componentes sobressalentes para uso em testes. Isso acontece porque as empresas costumam comprar um número insuficiente em seus lotes com o objetivo de reduzir os seus custos. Mesmo com reuniões exaustivas no INPE para tentar um entendimento sobre o assunto, o problema continua a ocorrer, relata uma fonte.

Se o atraso fosse por questão de desenvolvimento de tecnologia, até poderia se justificar, mas não é o caso, já que a maioria dos componentes já possui domínio tecnológico brasileiro ou são importados com qualificação. Em decorrência dessas e de outras falhas, o contrato já possui 14 termos aditivos, principalmente para correção inflacionária por consequência do tempo.

Inclusive, o Tribunal de Contas da União – TCU auditou o contrato, tem questionado esse número exagerado de alterações de valor, e já proibiu novos aditivos.

Teoricamente, seria o caso de notificar as empresas e multá-las por atraso de cronograma e falta de atendimento aos requisitos; no entanto, de acordo com os técnicos, diversos relatórios e atas foram enviados à AEB e até hoje não tomaram as medidas legais contidas no próprio contrato.

Onde mora o problema na aquisição da versão 2 da PMM?
A PMM é como se fosse um caminhão com carroceria. Nela vai a carga que se deseja utilizar para aquela determinada tarefa. No caso da primeira versão, ela vai levar a carga útil do satélite Amazônia 1, que terá a missão de monitorar a região Amazônica.

Já a versão 2, vai levar a carga de um satélite que possui dois objetivos: monitorar a Terra e também gerar dados para estudos geofísicos (buraco negro, por exemplo).

Portanto, cargas podem ser alteradas, mas a PMM é a mesma, exceto por algumas pequenas adequações. Atualmente, a PMM que receberá o Amazônia-1 possui os seguintes subsistemas prontos para lançamento: a estrutura, o sistema de propulsão e o Sistema de Controle de Atitude e Órbita, que inclui o computador de bordo. Os outros subsistemas ainda estão passando por qualificação, como é o caso do controle de potência, da antena, e de outros equipamentos.

A parte de cablagem (ligação elétrica entre os vários subsistemas) e os testes térmicos ainda não foram implementados. Inclusive, a licitação para a contratação da fabricação da cablagem ainda nem foi aberta.
A qualificação individual de cada subsistema não garante o funcionamento do satélite como um todo.

É preciso que seja feita a qualificação integral do satélite, com todos os seus subsistemas em operação, para se ter a garantia de que tudo funcionará bem, uma vez posto em órbita. No caso da PMM 1, esta etapa ainda está longe de acontecer. Portanto, a aquisição de uma segunda PMM, sem que a primeira tenha sido concluída e submetida a todos os testes, é algo extremamente temerário.

O uso do computador de bordo, do sistema de atitude e do sistema propulsivo, por exemplo, estão sendo feitos pela primeira vez e, por isso, não se sabe se irão funcionar adequadamente quando submetidos ao ambiente agressivo do espaço.

Proteus é a PMM francesa
A PMM é uma cópia do satélite francês Proteus. A diferença é que este já foi amplamente testado por meio de várias missões espaciais bem sucedidas, com o lançamento dos satélites Jason-1 (2001), seu sucessor Jason-2 (2008) – ambos projetados para se medir a topografia oceânica –; o satélite Calipso de meteorologia (2006), o mais conhecido de todos; Corot (caçador de exoplanetas), um satélite de sismologia estelar (2006); e o SMOS (2009), dedicado a medir a umidade do solo e a salinidade dos oceanos. Na sequência, está previsto para 2013 o lançamento do satélite Jason 3, com a mesma missão dos seus antecessores.

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