Demissões na GM: negociação x mobilização

pressão: Direção da GM coloca opinião pública contra sindicato
Demissões na GM: negociação x mobilização

Cumprindo o que havia “negociado” com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (PSTU-Conlutas) no final de janeiro, a direção da General Motors do Brasil (GM) anunciou, neste dia 26/3, a demissão de 598 funcionários que já se encontravam com seus contratos de trabalho suspensos desde agosto de 2012.
Por Gino Genaro

Outros 152 funcionários foram reconvocados ao trabalho por possuírem direito à estabilidade, a maior parte por apresentar algum problema de saúde contraído no trabalho.

A planta da GM de São José dos Campos sempre foi uma das mais lucrativas e os salários um dos mais altos dentre os pagos pelas montadoras de automóveis no Brasil. Além disso, trata-se da única planta onde ainda não vigora o “banco de horas” e onde as horas extras são pagas na maneira “tradicional”.

A situação começou a mudar a partir da crise internacional de 2008, quando a GM viu a possibilidade de aumentar enormemente seus lucros ao transferir a linha de montagem do sedã Classic de São José para a Argentina, mudança esta que já se encontra em curso.

Daí a dizer que estava se mudando por conta do “radicalismo” do movimento sindical, foi um pulo. Nada mais inteligente que jogar a culpa pela busca incessante por maiores lucros em cima dos próprios trabalhadores.

É importante destacar que desde o início deste processo o sindicato não conseguiu ampliar muito o movimento para barrar as demissões. Apesar da realização de várias passeatas, panfletagens, interrupções do trabalho por um ou dois dias, e até mesmo a interdição da rodovia Presidente Dutra por alguns minutos, ficou patente a opção do sindicato em depositar suas principais fichas nas infindáveis negociações com os dirigentes da empresa (foram seis meses de negociações com reuniões que chegaram a durar nove horas), bem como na busca por apoio político junto aos governos federal, estadual e municipal.

Neste sentido, o sindicato acabou priorizando sua artilharia contra o governo, ao afirmar que as renúncias fiscais feitas pelo governo federal, em particular via isenção do IPI, foram feitas sem a exigência de contrapartidas para se evitar demissões.

A GM, por sua vez, sempre se defendeu apresentando ao governo dados que demonstravam que o número de contratações sempre foi maior que o número de demissões, isto considerando globalmente todas as plantas da empresa no país. De todo modo é fato que muito dinheiro público foi injetado na indústria automobilística nos últimos anos, o que permitiu manter as altas taxas de lucro e crescimento do setor mesmo no auge da crise econômica de 2008.

Diante deste quadro de baixa mobilização, o máximo que o sindicato conseguiu nas várias reuniões que teve com a direção da empresa foi negociar “os termos” em que se dariam as demissões.

Com isso fecharam um acordo com a empresa que previa, dentre outros pontos, a não implantação do banco de horas, garantia de investimentos de R$500 mi até 2017 e a retomada da produção do modelo Classic, que já havia sido interrompida.

Em contrapartida o sindicato aceitou a implantação da jornada flexível de trabalho em caso de oscilação na produção e redução do piso salarial para os novos contratados de R$3.100 para R$1.840. Como resultado a GM comprometeu-se a reduzir o número de demissões, de 1.598 considerados “excedentes” para os atuais 598.

No final de abril, Luiz Moan, diretor de Assuntos Institucionais da GM, esteve na Prefeitura de São José dos Campos para anunciar a possível vinda de novos investimentos para a montadora na cidade. Ao lado do prefeito Carlinhos Almeida, Moan informou que São José “disputa” o investimento com outras duas montadoras.

Durante a coletiva de imprensa, Moan afirmou que a vinda de novos investimentos estaria condicionada às vantagens que a montadora pudesse obter por meio de incentivos fiscais da Prefeitura e pelo consentimento do sindicato em flexibilizar a jornada de trabalho e a redução dos salários para os novos contratados.

Fica o questionamento sobre até que ponto o caminho das “negociações” com a empresa surtiu o efeito esperado. Fica também o sentimento de que faltou uma maior mobilização da categoria, que chegasse à interrupção da produção por tempo indeterminado, caso a situação assim exigisse.

Hoje, tão ruim quanto as demissões é saber que boa parte da opinião pública parece estar convencida de que as mesmas aconteceram devido à “intransigência e radicalismo” do sindicato, por não ter aceito, no passado, as condições da empresa (leia-se, redução de direitos trabalhistas), para que houvesse novos investimentos.
(*) Gino Genaro é engenheiro do INPE e diretor do SindCT

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