A lei de Parkinson e o sistema elétrico do Brasil

A lei de Parkinson e o sistema elétrico do Brasil

USINAS REVERSÍVEIS: alternativa à escassez de energia

Por Luís Bambace (*)

Parkinson postulou que todo recurso disponível a um grupo é totalmente utilizado ou “embolsado” por ele, mesmo que absolutamente desnecessário. Por isto, baixar as tarifas elétricas é importante, pois os investimentos no setor atendem a interesses que não o de suprir a demanda a custo mínimo.

Dentre as opções existentes, obter apoio político de empreiteiras provavelmente gerou escolhas mais caras e piores dos empreendedores do setor. Se só se pode gerir poucas obras, ganha-se mais quanto maiores elas forem. Fazer algo certo depende de informação, pois ninguém toma decisões certas com informações erradas.

Com consumo de pico e médio em novembro de 2012 de 72 e 60 GW, potência hidrelétrica e total (incluindo nucleares/eólicas/térmicas) de 92 e 137 GW, segundo site do ONS (Operador Nacional do Sistema elétrico), não faltará energia no Brasil, mesmo que haja uma seca prolongada nos próximos meses.

O problema está em 1) gerar toda esta energia a longas distâncias do mercado consumidor; 2) no controle da malha de distribuição; e 3) no fato das empresas geradoras não investirem na conservação de energia, o que poderia elevar a capacidade atual de geração em 614 GW-hora por dia.

Da capacidade hidrelétrica máxima de 2.208 GW-h/dia, gera-se menos de 1.440 GW-h/dia por falta de demanda. Ou seja, 768 GW-h/dia (35%) são simplesmente descartados por falta de consumo, o que é feito permitindo-se que a água passe através das barragens sem gerar energia.

Como racionalizar, então, o uso desta energia “desperdiçada” nos momentos em que a demanda é baixa? No Brasil, cidades do litoral têm, em geral, represas de suprimento de água próximas umas das outras, onde uma delas encontra-se a altitudes maiores (geralmente no alto da Serra do Mar, da Mantiqueira ou Serra dos Órgãos).

Como represas ficam em rios, há uns 200 pares destas represas com desnível de cerca de 700 m entre elas e a menos de 3 km uma da outra. Destas barragens, 13 tiveram usinas reversíveis iniciadas pelos governos militares na década de 1960-1970, e interrompidas em seguida para se justificar a construção de Itaipu.

Somente as pequenas Vergueiro e Lages foram recém acabadas e ligadas entre si, no sistema que abastece o Rio de Janeiro com água potável do rio Paraíba do Sul. O que elas fazem? Usam a sobra das hidrelétricas para bombear água da represa que se encontra mais embaixo para a represa de cima.

Desta forma, quando falta energia, a água estocada na represa de cima é utilizada para se gerar energia para a rede, com rendimento entre 80 a 92%. Usinas como estas no Brasil não custariam nem US$70,00 por kW de potência instalada, enquanto a conclusão das usinas inacabadas, nem US$15,00/KW, contra mais de US$1.000,00/KW das hidrelétricas ou US$500,00/KW das termelétricas.

Mas a tarifa elevada permite a alguns fazerem a festa com obras caras. Urge abrir esta caixa preta.
As usinas reversíveis permitiriam elevar consideravelmente a hoje escassa capacidade de regulação local da produção de energia. Nos últimos anos, tal regulação na produção de energia tem sido feita às custas das termelétricas, a um alto custo de produção, fortes impactos ambientais e de modo ineficiente, dentre outros motivos pelo fato de estarem situadas longe dos polos de consumo.
As usinas reversíveis de baixo custo próximas às grandes cidades constituem-se na principal alternativa para o fim dos apagões. Entretanto, ainda de acordo com a lei de Parkinson, o que prevalece é o ganho de poucos e não necessariamente a decisão mais correta.

Como o mais importante é lucrar -- e não atender bem ao consumidor -- usinas inteiras ficam encaixotadas por 20 anos, como revelou recente reportagem na mídia. Será que as máquinas da usina reversível Traição 2, de mais de 1GW, continuam encaixotadas? Com exceção das máquinas e de sua instalação, o resto está pronto!

As usinas reversíveis economizariam, nos períodos de seca, água das hidrelétricas ou combustível das termelétricas. O nível de uma represa sobe se o volume de água consumido na evaporação e na vazão de geração, desvio ou vertedouro, for menor que o volume de água que nela chega.

De modo oposto, o nível de uma represa cai se o volume de água que nela chega for menor que o volume gasto sob as diversas formas. Deve-se notar que não se pode iniciar a temporada de chuva com o reservatório das usinas totalmente cheio, pois isto gera risco de não se poder reter ondas de cheia em caso de chuvas muito fortes. As turbinas são dimensionadas pela vazão média do rio.

Se a retenção de água nas barragens é exagerada, o nível do rio baixa, a água dos afluentes aceleram, gerando erosões e acidentes. Sempre que a geração está abaixo do limite mínimo de vazão, descarta-se água, e, nos picos diários de consumo, usa-se água armazenada no reservatório para aumentar a geração de energia.

A geração de energia por meio das usinas reversíveis, utilizando-se a água que seria descartada, diminui a necessidade de vazão alta nas hidrelétricas nos horários de pico, propiciando uma maior retenção de água nos reservatórios.

Estatisticamente, esta retenção de água pode ser garantida em mais de 90% do tempo, e, quando não for possível economizar água, economiza-se combustível das termelétricas (as figuras abaixo ilustram este fenômeno).

O investimento em usinas reversíveis pode contrariar enormes interesses no mercado, mas contribuiria enormemente para a estabilização do fornecimento de energia elétrica em todo o país, e o que é mais importante, a custos bem menores que os praticados atualmente.
(*) Luís Antônio Waack Bambace é Tecnologista sênior do Inpe, doutor em Aerodinâmica, Propulsão e Energia pelo ITA

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