A crise mundial e o Brasil

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A crise mundial e o Brasil

Por Wladimir Pomar*

A atual crise mundial tem trazido à tona muitas das contradições que movem o capitalismo.

Afetou profundamente os países mais desenvolvidos e tem afetado, em menor escala, os países subdesenvolvidos, onde as forças produtivas – meios de produção e forças de trabalho - ainda não alcançaram altos graus de desenvolvimento e qualificação tecnológica. Esse desnivelamento entre países centrais e países periféricos tem intensificado a segmentação produtiva.

As empresas multinacionais são constrangidas a deslocar plantas industriais para países de mão de obra mais barata, de modo a elevar as taxas de exploração e obter lucros maiores. Há, assim, industrialização nos países subdesenvolvidos e desindustrialização e desemprego nos países centrais.

Esse quadro geral e contraditório aponta para crises intensas e sucessivas nos países centrais. Na ânsia de manter seus lucros, o capitalismo promove a industrialização e o desenvolvimento dos países mais atrasados e cria novos páises concorrentes. Países serão tanto mais fortes quanto mais firmes forem na industrialização com componentes nacionais, impedindo que os monopólios dominem a economia.

Nos países desenvolvidos, a classe trabalhadora assalariada está sofrendo as dores do desemprego em massa. No entanto, no Brasil, na Índia, na China e em muitos países da América Latina, Ásia e África, tem aumentado o número de trabalhadores assalariados industriais.

No Brasil, esses trabalhadores não são mais oriundos das zonas rurais. Eles agora vêm das zonas urbanas, favelizadas nos anos 1960 e 1970, em virtude da expulsão de milhões de camponeses de suas terras pela modernização ditatorial do latifúndio. Trata-se de uma nova classe trabalhadora que, como mostrou a experiência da industrialização dos anos 1970, se sente momentaneamente satisfeita com a possibilidade de receber salários e benefícios sociais. Porém, o capitalismo, por sua natureza, não é promotor do bem-estar, desenvolvimento social e democracia, a não ser quando forçado pela luta de classes. As melhorias nas condições de vida e na ampliação dos direitos democráticos foram conquistadas com lutas, através das quais a classe trabalhadora aprendeu, pouco a pouco, aquela natureza do capital e se transformou, de colaboradora em opositora do sistema.

Nessas condições, a atual discussão sobre o desenvolvimento capitalista no Brasil - embora tenha como aspectos importantes a luta pela promoção da melhoria das condições de vida do povo, pela ampliação da democracia e pela garantia da soberania nacional, tem como questão central o crescimento da classe trabalhadora assalariada, em especial de seu setor industrial, o mais concentrado e capaz de enfrentar o capital em seu coração produtivo.

Num país em que o governo conta com a participação de trabalhadores, tal governo não pode abdicar do desenvolvimento capitalista, por um lado rompendo o domínio dos oligopólios privados, incentivando a competição interna e internacional e firmando a soberania nacional e, por outro, garantindo que esse desenvolvimento forje uma classe operária massiva, impeça a criminalização dos movimentos sociais e estimule a participação popular e a gestão democrática.

(*) Wladimir Pomar é escritor e analista político

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