Vá caçar sapo!

Bióloga de São Paulo realiza trabalho inédito no Brasil
Vá caçar sapo!

Por Ananda B. de Assis*

Ofensa para muitos, caçar sapos é parte de uma pesquisa inédita, realizada no Vale do Paraíba, que ampara cinco grupos diferentes de pesquisa.

O longo histórico de exploração da Floresta Atlântica resultou na substituição de grandes extensões de mata por uma paisagem fragmentada que compõe um mosaico de remanescentes descontínuos. Nesses fragmentos de floresta, o impacto da ocupação humana é evidente, havendo alterações profundas em variáveis ambientais, além da perda de hábitat e isolamento de populações.
Em tal cenário, algumas espécies conseguem estabelecer populações viáveis, que possuem atributos para sobreviver às adversidades ambientais, enquanto que outras espécies simplesmente desaparecem. Eis um dos fenômenos que mais intrigam os especialistas, havendo, assim, uma busca por entender quais mecanismos determinam maior ou menor vulnerabilidade das espécies ao processo de fragmentação das florestas.

O grupo dos anfíbios é considerado um dos mais suscetíveis às mudanças ambientais. Nas últimas décadas ,pelo menos 43% das espécies de anfíbios têm sofrido declínio, 32,5% estão globalmente ameaçadas, 34 espécies foram extintas e outras 88 estão passíveis de extinção ou possivelmente extintas. Os fatores apontados até o momento como principais causas de tais declínios têm total relação com modificações ambientais já bem conhecidas.

Destacam-se as mudanças climáticas, o aumento da incidência de radiação ultravioleta (UV-B), a introdução de espécies exóticas e competidoras, a contaminação por agentes tóxicos e, principalmente, a fragmentação de hábitat. Essas alterações no ambiente natural também têm relação com a crescente disseminação de doenças em animais selvagens causadas por microrganismos patogênicos, outro problema que atualmente tem proporções geográficas.

Uma maior vulnerabilidade dos anfíbios pode estar relacionada ao fato de possuírem uma pele altamente permeável que faz parte de um sistema complexo de interação com o ambiente, sendo parcial ou totalmente responsável pela hidratação, proteção e percepção do ambiente químico. Nessa pele também existe uma barreira de proteção contra microrganismos invasores que se dá por meio de mecanismos bioquímicos e biológicos derivados tanto da comunidade microbiana simbionte, via produção de antibióticos, quanto da secreção de moléculas bioativas, a partir das glândulas dérmicas, que possuem efeito antimicrobiano.

Esse “sistema pele” pode ser afetado pelas condições ambientais às quais os animais são expostos, havendo, portanto, uma relação complexa na qual o ambiente pode afetar a microbiota da pele de anfíbios e essas mudanças, por sua vez, podem afetar a suscetibilidade dos indivíduos à ação de agentes patogênicos.

Essas interações foram recentemente postuladas e são ainda pouco entendidas, mesmo assim, parecem essenciais na história natural dos anfíbios e têm importantes implicações em estudos sobre conservação de ecossistemas. Nessa pesquisa inédita, buscamos entender as relações existentes entre secreções cutâneas, ambiente físico e microbiota residente na pele de anfíbios e os efeitos de tais interações na proteção contra agentes patogênicos. O projeto é intitulado “Efeitos da Fragmentação Florestal sobre a Microbiota Cutânea e Secreção Dérmica de Proceratophrys boiei (Amphibia, Anura)” e é desenvolvido pelo laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – IB/USP, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.

A pesquisa tem sido desenvolvida em diversos fragmentos florestais no município de São Luís do Paraitinga e no Parque Estadual Serra do Mar – Núcleos de Santa Virgínia, Cunha e Picinguaba. Nessas áreas de estudo, indivíduos da espécie Proceratophrys boiei, conhecido na região como Intanha ou Chifrudinho (veja foto), são coletados e a partir deles amostras de secreções dérmicas e microrganismos são feitas para diversas análises posteriores. Medidas de variáveis macro e microambientais também são realizadas, tais como, composição microbiana do solo e da água, incidência de radiação ultravioleta, cobertura vegetal dos remanescentes, regimes de temperatura e umidade relativa, entre outros.

Estudos sobre a pele dos anfíbios como interface com o ambiente são indispensáveis no contexto atual de declínios populacionais dessas espécies, pois, como foi dito, doenças são causa de grande parte deles e são muitas vezes causadas ou agravadas por infecções através da pele. Ao mesmo tempo, o sistema de defesa dos anuros, que inclui o potencial antimicrobiano do “sistema pele”, pode ser um excelente indicador da suscetibilidade dos anuros a doenças infecciosas e do impacto da modificação do ambiente sobre tal suscetibilidade. O caso dos anfíbios da Floresta Atlântica parece particularmente relevante neste contexto, pois as principais ameaças à preservação desse grupo nesse bioma são a perda e a fragmentação do hábitat.

O projeto proposto apresenta, entre outros, o desafio da pesquisa interdisciplinar, pois engloba diversas áreas do conhecimento, dentre elas a Microbiologia, Ecologia da Paisagem, Bioquímica e Ecofisiologia. Assim, faz-se necessária a colaboração com diversos grupos de pesquisa que aprofundam diferentes abordagens, por exemplo, a bioprospecção acerca do potencial antimicrobiano das secreções dérmicas desses animais e dos antibióticos produzidos pelas bactérias isoladas da microbiota cutânea dos mesmos, o manejo e conservação das populações habitantes desses remanescentes, as práticas sustentáveis de uso da terra nas áreas do entorno visando à diminuição e ao impacto sobre os remanescentes, entre outros.

A compreensão da diversidade biológica e dos fatores abióticos nos fragmentos de Floresta Atlântica é indispensável para a conservação dos anfíbios e outros grupos que são afetados pelo processo de fragmentação. Esses estudos guardam grande expectativa no que diz respeito ao entendimento de diversos processos biológicos, à valorização de nossa megadiversidade e ao valor a ela agregado, além da orientação às políticas relacionadas à proteção desses remanescentes.

*Ananda Brito de Assis é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutoranda em Ecofisiologia pela Universidade de São Paulo.

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