DITADURAS AINDA EXISTEM; luta do povo pode derrubá-las

As lições das “revoluções” do mundo árabe

Desde janeiro, o mundo árabe, antes tão parado, está em efervescência.

Revoltas, repressão com mortes e queda de ditadores quase fazem pensar em revoluções.

Qual osentido dessa virada na história dos povos do Magreb e do conjunto do mundo Árabe? Quais lições podemos tirar?

Das cem possíveis, escolhemos cinco que nos parecem muito significativas.

Por Vito Giannotti*

A primeira lição que as revoltas e quase revoluções da Tunísia, Egito, Marrocos, Algéria, Iêmen, Bahrein e outros países trazem é que ainda é possível juntar milhões, enfrentar seus tiranos, sejam eles eleitos ou não. É possível ocupar praças e ruas e derrubar governos. Estas revoltas não se acabaram nos séculos XIX e XX.

Em pleno século XXI, palácios, bancos e quartéis podem ser tomados pelo povo enraivecido. Para muitos ex-revolucionários, desesperançados ou arrependidos esta é uma grande lição.

A segunda é o papel da mídia para construir consensos a serviço da manutenção da hegemonia política da classe dominante, isto é, das estruturas de poder político, econômico, militar.

Esta mídia, como manda a classe dona dos meios de comunicação, não tem nada de objetivo, de neutro, de preocupação com a verdade ou o serviço da informação do povo.

Esta mídia, desde o fi m da Primeira Guerra Mundial, em 1919, nada disse das ditaduras que foram implantadas, gradativamente, em quase todos os países árabes. Implantadas, do Marrocos à Arábia Saudita, pelas potências imperialistas ocidentais. Ditaduras criadas, patrocinadas pelos EUA e pelos países europeus.

Esta mídia só falou de “ditaduras” quando lhe interessava. Desvelou seu papel de mídia de classe.

A terceira lição é que estas revoltas não nasceram do nada.

O estopim foi a insatisfação com a piora da vida do povo a partir da implantação do neoliberalismo em todos estes países.

Neoliberalismo que vem com suas consequências imediatas: desemprego, privatização, isto é, piora dos serviços públicos, precarização dos direitos trabalhistas, rebaixamento salarial, enfim, tudo o que justifica uma revolta popular. Não é a toa que, na Tunísia, tudo começou com a repressão, igual à de qualquer outro país, a um pequeno vendedor ambulante que procurava sobreviver.

A quarta lição que estas revoltas nos dão, sobretudo a partir do caso da Líbia, que é um caso totalmente à parte dos outros, é que a atitude do Ocidente é a mesma há cem anos.

Europa e EUA não vacilam um segundo em intervir, invadir e declarar guerra a estes países, para defender seus interesses econômicos. Não tem nada de defender democracia, direitos humanos ou libertar as mulheres dos véus.

Tudo isso é balela para o Jornal Nacional nosso ou seu similar de qualquer país jogar fumaça nos olhos de ingênuos telespectadores. O objetivo da Europa e dos EUA com o mundo árabe é garantir o petróleo como matéria prima nobre e mercados para seus produtos, sejam eles mercadorias ou capitais.

A última lição que podemos tirar é que revoltas não são revoluções.

É muito mais fácil derrubar um ditador do que construir um novo projeto político que substitua uma ditadura a serviço de uma classe privilegiada e usurpadora dos bens do povo do que construir um novo projeto popular.

Um projeto onde o povo seja dono do seu país, do seu destino, para além de mecanismos ilusórios de democracia.

Para esta transformação é necessário construir milhares de associações, sindicatos, organizações da sociedade civil e partidos políticos.

*Vito Giannotti é coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação e escritor

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