Único profissional de extensometria não possui substituto

ASA-E: Orgulho da Equipe
Único profissional de extensometria não possui substituto

Quando se inicia o desenvolvimento de um novo produto, uma série de necessidades e expectativas são geradas e, para saber se o produto atende os seus propósitos, são aplicados ensaios mecânicos para checar se aquela determinada estrutura funciona e se resiste às situações a que serão submetidas.

Por Shirley Marciano

Cada produto hoje disponível no mercado passa por testes de qualidade, visando maior segurança e atendimento aos requisitos estabelecidos previamente por normas nacionais e internacionais ou específicos de cada cliente.

No caso de estruturas espaciais e aeronáuticas, como as de aeronaves, foguetes, satélites e outros, desenvolvidas pelo DCTA/IAE, são necessários testes estruturais, os quais são realizados nos Laboratórios de Ensaios Estruturais da Divisão de Sistemas Aeronáuticos do IAE.

Para entender melhor o assunto, a reportagem do Jornal SindCT foi conversar com o técnico em eletrônica, Milton Fernandes Garcia de Melo, que atua na área de instrumentação nos 4 laboratórios da Subdivisão de Ensaios Estruturais - ASA-E, da Divisão de Sistemas Aeronáuticos – ASA.

Milton trabalha há 29 anos no DCTA e, mesmo com todo esse tempo de casa, mantém o entusiasmo de um recém-ingressado na profissão. É um especialista na área de instrumentação, que utiliza a técnica de extensometria para análise experimental de tensões e deformações em estruturas mecânicas.

Jornal do SindCT: Como são realizados os testes?
Milton Fernandes G. Melo: Em cada estrutura ou peça que será testada são colocados vários extensômetros. Estes são pequenos sensores colados à superfície do material. O extensômetro é um resistor composto de uma finíssima camada de material condutor, depositado sobre um composto isolante, que é então colado sobre a estrutura em teste com auxílio de adesivos como epóxi ou cianoacrilatos (cola similar ao super bonder).

Pequenas variações de dimensões da estrutura, provocadas pela aplicação de cargas, são então transmitidas mecanicamente ao extensômetro, que transforma essas variações em variações equivalentes de sua resistência elétrica. Essa variação de resistência elétrica gera um sinal que então é enviado através de um fio para uma Sala de Aquisição de Dados - SAD, onde ficam os computadores que decodificam e tratam as informações por meio de softwares específicos.
Como base nessas informações, é possível saber se o material em teste resiste ao esforço mecânico especificado pelo projeto e se está apto para receber a qualificação.

Jornal do SindCT: Os extensômetros servem para qualquer tipo de formato e material?
Milton: Não. Para cada formato de superfície, tipo de material e objetivo é necessário criar um extensômetro personalizado. É um grande trabalho para desenvolver um que seja adequado para à situação determinada.

Jornal do SindCT: A qual Subdivisão do DCTA você pertence e o que é realizado nela?
Milton: Pertenço à Subdivisão de Ensaios - ASA-E e aqui são realizadas pesquisas, desenvolvimento de métodos, planejamento e execução de ensaios estruturais em aeronaves e seus componentes, mas também testes de estruturas para outras áreas, como a automobilística. A ASA-E é subdividida em 4 laboratórios: o de Ensaios Estruturais - LEE, o de Ensaios de Impactos - LEI, o de Trens de Pouso e Componentes - LTP e o Laboratório Central de Força – LCF.

Jornal do SindCT: Poderia explicar cada um desses laboratórios e o que é realizado neles?
Milton: Começando pelo LEE. Nesse laboratório são realizados o que chamamos de ensaios estáticos e de fadiga (ciclos repetidos de tensão e deformação). Os testes são aplicados ao desenvolvimento de aeronaves completas, fuselagens, trens de pouso, berço de motores, componentes de veículos espaciais, satélites, artefatos de defesa, componentes mecânicos e materiais diversos.

Inclusive, nesse laboratório foram obtidos resultados importantíssimos e de grande relevância para o país, como o ensaio de fadiga da aeronave A-29 Super Tucano da FAB e ensaios estruturais dos satélites CBERS e SCD-2.
O LEI é utilizado para ensaios de Impactos para medir a resistência mecânica de estruturas ao impacto de pássaros e outros objetos, como pedras de gelos, fragmentos de rocha etc., visando o desenvolvimento de componentes aeronáuticos, como para-brisas, fuselagens, estruturas das asas etc.

Também são testados outros tipos de estruturas, como para-brisas de trens ferroviários e metroviários. Curiosamente, o teste em aeronaves é feito com frango de verdade. Já sem vida, o frango é lançado por um canhão de aceleração, simulando um choque contra uma estrutura que pode ser a de um para-brisa, por exemplo. Esses testes são importantes, pois o simples choque de uma ave contra uma aeronave pode causar um acidente fatal.

O LTP é um laboratório de ensaios em trens de pousos, rodas e sistemas de freios para a Força Aérea Brasileira e a indústria aeronáutica, além de poder servir a outros setores da indústria, como a automobilística.
O trem de pouso de uma aeronave sofre forte impacto ao tocar o chão, além de ter de suportar rodas que se deslocam a cerca de 300 Km/h .Então, o teste é para medir se o trem de pouso resiste a essa situação.

O LCF é um laboratório de calibração de células de carga com capacidade para calibrações até 60 toneladas. Células de carga são transdutores (dispositivos capazes de converter uma grandeza em sinal elétrico) preparados para medir aplicação de carga em determinadas máquinas de ensaios mecânicos.

Jornal do SindCT: Você gosta do que faz? Acha um trabalho interessante?
Milton: Sim. Eu gosto muito porque é um trabalho único e de grande valor para o setor espacial e aeronáutico. Embora eu trabalhe há muito tempo com isso, sempre tive desafios. Até porque no começo não havia quem me ensinasse especificamente essa função. Fui aprendendo com muito esforço pessoal e sempre com ajuda dos colegas.

Jornal do SindCT: Estava me dizendo que está quase se aposentando. A quem o senhor passará o que aprendeu em todos esses anos?
Milton: Realmente isso é uma preocupação que tenho porque não existe hoje ninguém sendo treinado. E penso que precisaria de no mínimo uns três anos para se transferir esse conhecimento a um outro servidor em início de carreira.
A falta de profissionais dentro da área de Ciência e Tecnologia tem sido amplamente divulgada pelos veículos de comunicação, inclusive pelo Jornal do SindCT, mas as ações tomadas são muito pequenas e poderão comprometer anos de conhecimento, colocando em xeque os serviços prestados, como exemplo, os do DCTA/IAE.

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