Opinião

INPE: especialização em risco
Por que querem acabar com a pós-graduação?
Por Gino Genaro*

No último dia 16 de julho, em palestra à comunidade do Inpe de Cachoeira Paulista, o ministro Marco Antonio Raupp, do ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação - MCTI, e o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI, Carlos Afonso Nobre, defenderam abertamente o fim dos programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos - CPTEC, assim como os programas das demais unidades do Inpe. Raupp afirmou que o CPTEC vem perdendo seu caráter eminentemente operacional de prover serviços de previsão de tempo e clima à sociedade, ao mesmo tempo em que vem desviando boa parte de seus recursos físicos e humanos para a área de pós-graduação - PG.

Nobre lembrou que grandes centros similares ao CPTEC mundo afora não possuem programas próprios de PG, e que acha errado o CPTEC estar formando pessoal qualificado para as universidades, uma vez que a maior parte dos mestres e doutores formados acaba não permanecendo na instituição. Por fim, Raupp criticou o fato de tecnologistas ligados diretamente aos programas de satélites do Inpe estarem cursando PG, uma vez que os mesmos deveriam estar “engenheirando”.

Muitos dos presentes devem ter ficado chocados com as posições destes dois altos dirigentes do MCTI. Cientistas, pesquisadores e tecnologistas que dedicaram décadas de suas vidas à consolidação destes cursos no Inpe, levando a maioria deles a conquistar níveis máximos de excelência, não mereciam ser tratados desta maneira.

Se pelo menos o evento tivesse sido chamado explicitamente com o fim de avaliar o futuro da PG no Centro, a comunidade do CPTEC poderia ter se preparado melhor para o debate, seja com argumentos favoráveis ou contrários aos expostos pelo ministro. Mas, ao contrário, a agenda oficial do ministro informava apenas se tratar de uma “visita” de cortesia às instalações do Inpe de Cachoeira Paulista.

Os argumentos enumerados por Raupp e Nobre são no mínimo questionáveis. Afirmar que a PG pode estar contribuindo para que o CPTEC diminua sua capacidade operacional é contraditório com a própria missão do Centro, que prevê o desafio de se buscar o “estado da arte” em previsões de tempo e clima. Dizer que a PG deve acabar pois tem gerado dissertações e teses fora do foco de atuação do Centro suscita outro questionamento: se isto é verdade, por que o colegiado ou coordenação da PG não atuam para corrigir tal distorção?

E, por fim, o argumento de que os cursos de PG devem acabar pois os mestres e doutores formados não têm sido utilizados pela própria instituição é totalmente descabido pois, 1º) muitas destas pessoas não são utilizadas pois não tem havido vagas suficientes em concursos públicos para recebê-los; 2º) os cursos de PG do governo devem formar recursos humanos para o “País”, não necessariamente para as instituições que os formam, e 3º) até onde se sabe, não constitui pré-requisito para ingressar nestes programas o “compromisso” de que uma vez formados, os novos mestres e doutores devam exercer sua profissão na instituição por determinado período de tempo.

Quanto à crítica ao fato de muitos tecnologistas ligados aos programas de satélites do Inpe estarem buscando se qualificar, Raupp acaba entrando em contradição com os princípios basilares da Carreira de C&T (Lei nº 8.691, de 28/07/1993), calcada na meritocracia e na busca constante pela qualificação e titulação de seus servidores. Negar este direito aos servidores significa o mesmo que negar a importância da PG na busca do desenvolvimento científico e tecnológico.

Sob todos os ângulos que se queira analisar, é inadmissível a ideia de se pôr fim aos programas de PG do CPTEC e do Inpe, bem como de se negar o direito à qualificação técnico-científica aos servidores da área de C&T. Vinda de um ministro de Estado da Ciência e Tecnologia, tal tentativa mostra-se ainda mais preocupante.
(*) Gino Genaro é tecnologista do Inpe e secretário de Formação Sindical do SindCT.

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