Modelo de desenvolvimento é central nos debates

Modelo de desenvolvimento é central nos debates
Movimentos Sociais questionam lema da ‘economia verde’ que não prevê distribuição de riqueza e limite aos lucros

Por Sheila Jacob

Entre os dias 13 e 22 de junho o Rio de Janeiro recebeu o evento internacional Rio +20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Representantes de 193 países estiveram no Brasil para avaliar e renovar os compromissos assumidos por líderes mundiais 20 anos atrás, quando foi realizada a ECO- 92 na mesma cidade. Um dos grandes lemas desse encontro foi o esforço conjunto em direção à chamada “economia verde” e à “erradicação da pobreza”. Em questionamento a esse discurso, movimentos sociais, ativistas diversos e militantes do mundo inteiro se organizaram em um evento paralelo, intitulado Cúpula dos Povos, propondo a luta contra a mercantilização da vida, por justiça social e ambiental e em defesa dos bens comuns.

Propostas paliativas e superficiais
Como explica a economista Sandra Quintela, do PACS, a Cúpula dos Povos pretendeu apresentar uma visão alternativa à Rio +20. Os seus organizadores puseram em questão os esforços “paliativos” e “superficiais” dos países reunidos no evento para combater a crise social e ambiental, sem enfrentar as causas principais da pobreza e exploração. Segundo ela, o modo capitalista de organização da produção e distribuição dos bens materiais não foi questionado, nem os padrões de consumo.

Como o lucro continua sendo a prioridade das grandes empresas e bancos, com a permissão dos governos, a exploração da natureza e a opressão dos povos só tendem a aumentar. “Além de apresentar um contraponto ao discurso repetido pela grande mídia, a ideia é também mostrar a seguinte contradição: o Rio está se tornando vitrine do capital. A cidade vem sendo privatizada, entregue a megaempreendimentos, à poluição ambiental e à criminalização da pobreza.

Este é um dos maiores exemplos de como todo esse discurso é vazio”, destacou a economista na abertura do debate “O que está em disputa no Rio e na Rio +20?”, realizado no dia 14 de junho.

Dois projetos antagônicos em disputa
Jean Pierre Leroy, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), contou que naquele momento (da ECO 92), ainda havia certa ingenuidade de que os governos poderiam tomar consciência de seu papel para ajudar os movimentos sociais a construírem um futuro melhor. “O discurso, naquele tempo, não correspondeu a ações. Ideias como ‘desenvolvimento sustentável’ e ‘economia verde’ representam a banalização das grandes questões do nosso futuro”, avaliou.

Apesar do balanço pessimista, ele acha que mais movimentos sociais e organizações vêm se mobilizando no mundo inteiro, para fazer frente à mercantilização da vida, injustiça ambiental e ao capitalismo que só pensa em se reproduzir. Etelvina Mazzioli, do MST/Via Campesina, disse que existem dois projetos em disputa atualmente: o projeto do capital, “projeto da morte”, e o projeto dos povos, que é o projeto da vida. “A Rio +20 se apresenta como um conjunto de falsas soluções.

A estratégia deles é transformar todas essas crises – econômica, social, ambiental, alimentar – em mais um elemento de acumulação. Por que ninguém fala em distribuição da riqueza? Enquanto o discurso é de sustentabilidade e erradicação da pobreza, o capital se organiza para se apropriar dos territórios, transformando a natureza em mercadoria e ganhando legitimidade por ter um ‘discurso verde’ ”, avaliou. Para ela, os movimentos sociais devem se organizar na luta por soberania alimentar, Reforma Agrária, agricultura familiar, ou seja, “outra cultura e valores dos povos”, concluiu.

Um debate plurinacional
Além de representantes do MST e da FASE, o mesmo debate contou com a participação de personalidades internacionais como o nigeriano Nnimmo Bassey, do Amigos da Terra, e a argentina Nora Cortiñas, uma das Mães da Praça de Maio, que reforçaram a importância da organização dos povos de todo o mundo para a disputa de um projeto social.

No dia 12 de junho, pouco antes do início da Rio+20, o jornalista moçambicano Jeremias Vunjanhe, que veio ao Brasil para participar da Cúpula dos Povos, foi impedido de entrar no país. Ele veio denunciar os impactos da Vale em Moçambique, mas foi deportado pela Polícia Federal.

O estrangeiro possuía visto de entrada e não foi informado de nenhum impedimento ou irregularidade de sua situação. Segundo militantes sociais que construíram o evento paralelo à Rio +20, este ato arbitrário faz parte de um “processo de criminalização de um ativista da sociedade civil”. Após muita mobilização da sociedade civil, Vunjahe conseguiu entrar no país e participar das atividades da Cúpula dos Povos, que durou de 15 a 23 de junho.

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