Multinacionais querem a quebra do monopólio da produção de radiofármacos

Multinacionais querem a quebra do monopólio da produção de radiofármacos

Com a quebra do monopólio, todo investimento do Brasil na pesquisa de radiofármacos, durante 53 anos, estará perdido e preço dos medicamentos pode aumentar

Por Fernanda Soares
O senador Álvaro Dias (PSDB/PR) é autor do Projeto de Emenda Constitucional 517, que prevê a quebra integral do monopólio estatal da produção de radiofármacos. Hoje, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-CNEN), de São Paulo, é responsável por 95% de toda a produção nacional deste tipo de medicamento, gerando uma receita de R$ 80 milhões ao ano. O primeiro radioisótopo produzido pelo Ipen foi o iodo-131, a pedido do Hospital das Clínicas de São Paulo, em 1959. O Iodo 131 é utilizado no diagnóstico e tratamento do câncer de tireoide e possui um índice de cura acima de 95%. O gerente de Pesquisa e Desenvolvimento e Inovação, João Alberto Osso Jr, no Ipen desde 1991, afirma que não existe produto para substituir o iodo-131 nesta aplicação. A produção de radioisótopos ocorre em reatores nucleares e em aceleradores de partículas como o Ciclotron. O Ipen possui um reator Nuclear, o IEA- -R1, instalado em 1957, e dois Ciclotrons para a produção de radioisótopos que são transformados em Radiofármacos em instalações adequadas dentro da sua Diretoria de Radiofarmácia. Hoje, o Ipen produz 38 radiofármacos e atende 1,8 milhões de pacientes anualmente Renato Arthur Benvennutti, técnico e diretor da Associação dos Funcionários do Ipen, explica que a justificativa apresentada pelo senador para a PEC é irreal. “Nunca houve falta de material radioativo, o Ipen nunca deixou de fornecer material para ninguém”.

Quebra de monopólios beneficia multinacionais
Entre os servidores do instituto, a opinião é a mesma: a quebrado monopólio não beneficia a sociedade, mas as multinacionais interessadas em produzir os medicamentos no Brasil. A quebra do monopólio, proposta pelo senador, não foi discutida com a sociedade. “Precisava ao menos uma audiência pública. A PEC está aí e vai ser votada.”, explica o gerente João Alberto.
Há também o medo de que os preços dos medicamentos passem a ter preços inacessíveis para a população. “O gratificante deste trabalho é terminar uma pesquisa, produzir o radiofármaco e ver a população de baixa renda usando um produto que nós desenvolvemos”, diz Renato.

O que é o radiofármaco
Radiofármaco é um medicamento com material radioativo que exerce a sua função como qualquer outro medicamento. Porém, ao ser marcado com um material radioativo, permite ao médico identificar novas doenças, novos tumores ou mau funcionamento do organismo. A maior parte da utilização de radiofármacos é para diagnóstico em medicina nuclear. Os métodos mais tradicionais, como cintilografia, empregam há muitos anos o material radioativo, como o iodo-131, por exemplo. Nos últimos dez anos a técnica mais empregada pela medicina nuclear, para diagnóstico, é a tomografia e emissão de pósitrons, que utiliza um radioisótopo de meia-vida curta, no caso o flúor-18. Meia-vida curta significa que o produto dura muito pouco tempo. A cada duas horas a sua utilidade radioativa cai à metade. A demanda pelos radiofármacos tem se mantido constante principalmente na área de oncologia, de neurologia e também na cardíaca. Por possuírem tais características, esses medicamentos são preparados em datas e quantidades previamente agendadas, e são distribuídos apenas para clínicas e hospitais credenciados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear, de acordo com sua capacidade. [FS]

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