Cidade

PREFEITURA: Prestação de contas revela o absurdo
São José gastou mais com desocupação do que gastaria com regularização do bairro

Por Fernanda Soares

O município de São José dos Campos teve prejuízo com a desocupação do Pinheirinho. E estes já ultrapassam a casa dos milhões. O Portal Transparência apresenta um gasto da Prefeitura de mais de R$ 2,2 milhões, referentes a 300 mil marmitex e 150 mil cafés que, em tese, foram distribuídos aos moradores de Pinheirinho. De acordo com os cálculos realizados pelo Portal com base nas informações da própria prefeitura, seriam gastos 112 mil marmitex e 94 mil cafés,
se todos os que estivessem no abrigo fizessem as três refeições diárias no local.

O vereador Wagner Balieiro (PT) afirma que para consumir a quantia comprada pela prefeitura, 3.150 pessoas deveriam ficar nos abrigos durante os 47 dias e não foi o que aconteceu. O número máximo de desabrigados nos alojamentos da prefeitura foi de dois mil ex-moradores.
Outro ponto de denúncia é referente ao valor pago pelas pulseiras de identificação que os moradores eram obrigados a usar. Na prestação de contas, o valor pago pelas pulseiras de plástico foi de R$ 5,80 a unidade.

Resgate:
R$ 1.473,11 por animal
Denúncias contra policiais que teriam atirado em animais de estimação, ou tratoristas que passaram por cima de casas com animais dentro, foram frequentes após a desocupação do bairro. A prefeitura havia se responsabilizado pelo recolhimento dos animais, bem como pelo alojamento dos mesmos, já que seus donos estavam sem casas. Alguns moradores conseguiram retirar seus animais, porém 239, entre cães, gatos e coelhos, permaneceram no local.

Após uma grande pressão realizada por Organizações Não Governamentais de defesa dos animais, a prefeitura contratou uma empresa para o recolhimento e abrigo. A ONG Cão Sem Dono visitou o abrigo no dia 13 de março e constatou que metade dos animais havia morrido. As denúncias não param por aí. Para fazer o recolhimento dos animais a Prefeitura gastou R$ 1.473,11 por cada animal, três vezes o valor do auxílio- moradia para as famílias.

Custo da operação: R$ 10 milhões
O custo contabilizado pela prefeitura para a realização da desocupação foi de R$ 10,3 milhões. Os vereadores estimam um valor muito maior. Ao incluir na conta o valor pago pelo auxílio-moradia, o gasto para a desocupação atinge o montante de R$ 17,98 milhões. Falta incluir nessa contabilidade os valores gastos com deslocamento da tropa de choque e policiais, horas extras de funcionários e despesas extras nos alojamentos com luz, água e funcionários.

Ainda conforme promessa dos governos, os moradores continuarão recebendo o auxílio-moradia até a entrega das casas. Portanto, mais R$ 24 milhões serão gastos. Já a construção de moradia para 1.100 famílias que foram cadastradas, promessa dos governos municipal e estadual, não sairá por menos de R$ 100 milhões. Os valores foram estimados sem correção. E ultrapassam, e muito, o custo de compra do terreno e regularização do bairro.

PINHEIRINHO: Como vivem os moradores três meses depois
Medo da Prefeitura é sentimento predominante
Lembranças da desocupação ainda atormentam mulheres e crianças

O Jornal do SindCT conversou com duas ex-moradoras do Pinheirinho. As duas mulheres atualmente são vizinhas no novo bairro e contam uma com a outra para enfrentar os problemas causados pela desocupação. A primeira a conversar com o Jornal do SindCT tem quatro filhos de 14, 12, 6 e 1 ano e meio. Era faxineira e agora não pode mais trabalhar. “Eu não posso sair de casa, qualquer barulho diferente que meus filhos ouvem, principalmente de avião, começam a chorar e achar que serão expulsos de casa”.

Ela conta que a desocupação na sua casa não teve violência física, mas a psicológica foi grande. Denuncia o uso de arma de fogo por uma policial feminina e questiona: “Sendo mulher, como uma policial pode chegar perto de uma criança com arma?”. A faxineira não teve tempo de recolher seus pertences. Ela e os filhos saíram apenas com a roupa do corpo. Para buscar a mudança que, segundo a Prefeitura, teria caminhões disponíveis para isso, precisou pagar R$ 600,00. Ainda encontrou a casa arrombada, e tudo o que tinha de melhor havia desaparecido.

Sua vizinha viveu o mesmo. Mora com o marido, a mãe, três fi lhos e uma neta. Jogaram bomba de gás em sua mãe e ameaçavam a fi lha adolescente, que havia passado por uma cirurgia no coração, com os cachorros. Ela conta que, apesar do tenente que acompanhou a desocupação na sua casa ter chorado, a maioria dos policiais parecia estar gostando de realizar a desocupação e de vê-los sofrer. Sobre seus pertences, conseguiu recuperar pouca coisa: algumas roupas, o fogão e dois colchões. Ao serem solicitadas para fotos, ambas reagem rápido com um “não posso!”. Indagadas do porquê, informam que foram orientadas pela assistente social a não dar entrevistas, não participar de audiências públicas, passeatas, atos ou qualquer manifestação, sob o risco de serem cortadas do benefício do auxílio-aluguel.

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