Cultura

AÇÃO POLÍTICA é revivida com parceria com SindCT
Rádio Aguapé está de volta Movimento cultural pretende reunir arte, ciência e educação

Por Sheila Jacob

Em uma parceria firmada com o SindCT, a Rádio Aguapé pretende unir ciência, tecnologia e cultura. A ideia é divulgar para a população as ações do Programa Aeroespacial Brasileiro, do INPE e do DCTA. “Tem coisas que o povo precisa saber. O carro a álcool, por exemplo, foi desenvolvido no nosso município, a urna eletrônica também. Tudo isso está na vida do povo, e a gente nem sabe que surgiu aqui”, esclarece César Pope, um dos fundadores do grupo.
Também serão distribuídos jornais do Sindicato e serão divulgadas as reivindicações dos trabalhadores, como a Campanha Salarial, e denúncias de sucateamento e privatização da área.

Como surgiu a Rádio Aguapé
Em meados da década de 1980 surgiu um movimento cultural em São José dos Campos para levar música, poesia, dança e teatro aos moradores da cidade. Foi a Rádio Aguapé, formada por cerca de dez artistas que, entre 1985 e 1990, veiculavam suas ideias e seus talentos muitas vezes por meio de caixas de som de amigos. “Era um movimento bem espontâneo, que reunia poetas, músicos, atores, bailarinos, agentes culturais, jornalistas.

O grupo se apresentava todos os sábados na antiga Praça da Cultura, hoje Praça Afonso Pena”, conta César Pope. Natural de Assis (SP), cidade vizinha ao estado do Paraná, Pope é radialista, músico, agente cultural e produtor. Em entrevista ao Jornal SindCT, ele contou que aos 18 anos veio para São José por causa da família. Desde então colaborou com rádios comunitárias e resolveu criar, com um grupo de conhecidos, o movimento que uniria apresentações artísticas a divulgação de ideias e opiniões críticas.

As exibições se organizavam em várias seções de rádio, o que explica seu nome. Havia, por exemplo, os programas “Bolo de Fubá”, “Rádio Mulher” e “Boca no Trombone”, que nas palavras de Pope é um “espaço reivindicativo, para falar o que a Veja, O Vale e o Jornal Nacional não falam de jeito nenhum”. Foram cinco anos de exibições regulares até o movimento enfraquecer um pouco, quando Pope se mudou para Barcelona, Espanha. “Fui para a Europa na cara e na coragem, e morei lá por 20 anos. Agora estou de volta, e a ideia é retomar as atividades desse movimento tão importante”, conta Pope. Na década de 90, a Rádio Aguapé ganhou o estatuto de Ong, e passou a se denominar Núcleo de Ação Cultural Rádio Aguapé (NACRA). Em 2011 e 2012, o grupo retomou suas apresentações na praça central da cidade, revivendo o movimento cultural de 25 anos atrás.

A década de 70
O movimento, no entanto, não foi o primeiro a ocupar a Praça. No final da década de 1970, ainda época de ditadura civil-militar, a mesma Praça servia como ponto de encontro para declamações de poesia. “Essa época era bem difícil por causa da repressão. Queríamos transformar o espaço em lugar de manifestação dos anseios da sociedade. Trazendo versos de Ferreira Gullart, João Cabral de Melo Neto e de ‘poetas marginais’, pensávamos que a poesia era importante para estimular uma reflexão crítica sobre o período em que vivíamos”, conta o poeta José Morais.

Segundo ele, a Rádio Aguapé surgiu como uma extensão da iniciativa deste grupo de jovens que se reuniam na praça também aos sábados, entre os anos de 1978 e 1982.

De volta às raízes
O movimento agora ressurge, procurando unir tanto jovens artistas quanto antigos participantes. É o caso, por exemplo, de Pérsio Assunção, cantor e compositor paulistano que veio para São José em meados da década de 1980, bem no início da Rádio Aguapé, e desde então começou a colaborar com o grupo. Foi inclusive nesta cidade que ele lançou, em 1990, seu primeiro disco, “Língua de violeiro”. Animado com o retorno, o artista afirma ter saudade daquele tempo em que o interesse pela cultura popular era bem vivo.

“Nesses últimos anos esse cenário artístico mudou muito, pois o capitalismo veio transformando as ações culturais em produto. A indústria passou a determinar as direções da cultura, então essa área do pensamento se transformou em interesse de mercado. Iniciativas como a Rádio Aguapé se tornaram muito difíceis, pois é uma resistência a essa tendência”, afirma Assunção, dizendo considerar importante espaços como esse, que possibilitam mostrar a diversidade, a riqueza e a força da cultura popular brasileira.

Após as apresentações de maio, a ideia é levar a Radio Aguapé para regiões periféricas de São José dos Campos, com o objetivo de estimular os moradores a saberem mais sobre sua cidade.

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