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HAITI: dois anos depois, reconstrução do país caminha a passos de tartaruga

Primeira nação a libertar os escravos ainda paga o preço pela sua ousadia

Impossível pensar no Haiti sem se emocionar. As notícias que nos chegam da ilha descoberta por Cristóvão Colombo em 1492 não são nada animadoras. Destruído há dois anos por um terremoto, quase nada foi feito para melhorar a vida do povo.

Por Claudia Santiago

De acordo com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, os negros escravos do Haiti nunca foram perdoados pelo atrevimento de terem humilhado o poderoso exército de Napoleão Bonaparte, em 1804.

Os haitianos sempre sofreram muito. Na última década não foi diferente. Em 2004, um golpe da direita contra o presidente Jean-Bertrand Aristide jogou o destino do país nas mãos de exércitos estrangeiros. Aristides já havia sido presidente do país.

Eleito em 1990, foi deposto, um ano depois, também por um golpe de Estado liderado pelo Exército com o apoio da CIA. Em janeiro de 2010, um terremoto matou mais de 200 mil pessoas.

A infraestrutura da capital Porto Príncipe foi praticamente destruída. Três milhões de pessoas, quase um terço da população, foram atingidas.

Depois veio o surto de cólera. Recentemente, o Brasil começou a receber haitianos que fogem da pobreza e da fome. Novamente fogem da sua terra, como fizeram antes, durante as ditaduras Duvalier, nas décadas de 60 e 70.

O primeiro país do mundo a acabar com a escravidão
Houve um tempo em que o Haiti foi exemplo. Foi o primeiro país do mundo a acabar com a escravidão. Escravos se rebelaram e colocaram fi m ao antigo regime, em 1794. Nos EUA, a escravidão só terminou 70 anos depois, em 1863.

O Brasil é lanterninha. Aqui, a vergonha só acabaria oficialmente em 1888. O país pode voltar a ser exemplo. Garra esse povo já mostrou historicamente que tem.

Para isso, precisa de ajuda e soberania para definir seu destino. Desde janeiro de 2009, uns 30 integrantes da Via Campesina estão no Haiti com a Brigada Internacionalista Jean-Jacques Dessaline.

Seu objetivo é compartilhar com os camponeses haitianos as experiências brasileiras.

Após o terremoto, os custos para a reconstrução do país foram estimados em US$ 11,5 bilhões. Entretanto, apenas US$ 352 milhões foram enviados ao Fundo para a Reconstrução do Haiti, segundo informe da ONU, divulgado em julho do ano passado. O uso que está sendo feito do dinheiro liberado para o Haiti é assunto para outro artigo.

Por que os bancos recebem e o povo do Haiti não?
Enquanto isso, na primeira semana de março, o Banco Central Europeu anunciou a liberação adicional de 530 bilhões de euros para os bancos europeus a juros de 1% ao ano. Em dezembro, outros 489 bilhões de euros já haviam sido oferecidos aos bancos.

Os capitalistas, aliás, ganham sempre. Empresários estadunidenses, e brasileiros também, pagam salários baixíssimos a trabalhadores haitianos em zonas francas instaladas no país. Ganham na exploração do trabalho e na sonegação de impostos ao miserável Haiti.

Em 15/08/2008, o jornal Valor Econômico já dizia: “Apesar da confusão institucional, o Haiti tem vantagens importantes para oferecer a uma empresa têxtil: proximidade e acesso diferenciado ao maior mercado do mundo, os EUA, e mão-de-obra barata.

Uma costureira na capital Porto Príncipe recebe US$0,50 por hora. É uma remuneração inferior aos US$ 3,27 pagos no Brasil e muito abaixo dos US$ 16,92 dos EUA”.

O Haiti sempre foi visto pelas grandes potências como fornecedor de mão de obra barata. A burguesia francesa fez a festa à custa do trabalho dos haitianos na produção de grandes quantidades dos valorizadíssimos café e açúcar. O tempo passou, mas a mentalidade colonial é a mesma.

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