Nossa Área

O desenvolvimento do país passa pela pesquisa nacional
Em defesa da Ciência, da Tecnologia e da Inovação

Manifestação pública de algumas entidades representativas da comunidade científica, com representantes da indústria no Brasil, provoca estranheza e pode contribuir para esquentar um debate necessário.

Por Diretoria*

A publicação conjunta de um Informe Publicitário, na edição de 20 de março da Folha de S. Paulo, provocou estranheza em parte da comunidade científica, fazendo aumentar ainda mais a necessidade dos trabalhadores das áreas envolvidas entrarem com profundidade no debate. O informe foi assinado por entidades representativas da comunidade científica (SBPC, Academia Brasileira de Ciência, Associação Nacional de Empresas Inovadoras e Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica) com a nata da representação da indústria no Brasil (CNI e federações da indústria de SP, RJ, MG, PR e BA).

A razão do manifesto conjunto

Fazendo um apelo direto à presidenta Dilma Roussef, o manifesto “Em defesa da Ciência, da Tecnologia e da Inovação” ressaltou “a necessidade urgente de revisão da decisão que reduziu recursos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)”. A alegação foi a de que “tal medida terá consequências dramáticas para o desenvolvimento do Brasil, caso não seja revertida”. A íntegra do informe está no endereço http://www.anpei.org.br/download/manifesto.pdf.

Quem, entre os trabalhadores nas áreas de C&T no Brasil, discorda da necessidade de se investir mais na área e, mais ainda, da necessidade de se reverter a absurda decisão governamental de reduzir os gastos, além da previsão de contingenciamento dos recursos para a área no orçamento federal de 2012? Avançando ainda mais: haverá entre os que sonham com o desenvolvimento autônomo e sustentável do país, com emprego, distribuição de renda e justiça social, quem tenha um entendimento diferente em relação a este assunto?

Por que, então, o estranhamento de alguns, por enquanto, em relação à inédita, “manifestação conjunta” de representantes da comunidade científica com o empresariado industrial?

Razões iniciais para o estranhamento

Os trabalhadores brasileiros – e os da área de C&T não têm motivo para pensar diferente – nunca viram, da parte do empresariado industrial que atua no país, independente da origem do capital, maiores demonstrações de preocupação com a geração de empregos, distribuição de renda, ou, em “melhorar seus (do Brasil) índices sociais”, termos constantes no manifesto.

Pelo contrário. As inovações, inclusive na forma de gestão, adotadas pela indústria do país, no auge da dominação do pensamento neoliberal, inclusive da parte dos governantes, vieram acompanhadas de desemprego, achatamento salarial e marginalização de largos contingentes de trabalhadores em relação ao mercado formal de trabalho.

Símbolo desse período: em 2002, último ano do Governo FHC, seu então ministro do Trabalho, Walter Barelli, publicou um livro pregando a necessidade de se gerar alternativas de renda (sobrevivência) para a maioria da população, porque se caminhava inexoravelmente para o fim do emprego formal. Tese desmentida nos oito anos do Governo Lula.

No entanto, há razões “internas” mais profundas que justificam as desconfianças em relação às intenções de quem idealizou e tornou público o manifesto.

Conteúdo do manifesto contraria realidade

O professor titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, Renato Dagnino, debateu o assunto na edição 4465 do jornal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O texto encontra-se na íntegra no endereço www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81753

Nesse artigo, o professor manifesta estranheza em relação à opção das referidas instituições representativas da comunidade científica em se juntar ao empresariado industrial para cobrar do governo uma reivindicação que é de todos.

Além disso, Dagnino apresenta, em sua análise, razões políticas e objetivas, com dados históricos, para demonstrar que a realidade brasileira – em parte também a mundial – vem andando na contramão das justificativas que foram apresentadas no “manifesto” publicado na Folha de S.Paulo.

Vamos ao debate

Para o SindCT não se trata de fechar com a análise e as ideias do professor Dagnino. A tarefa é aprofundar o debate, dando ao mesmo a perspectiva que interessa tanto aos trabalhadores da área como ao conjunto da nação brasileira.

Queremos reafirmar e provocar esse debate entre as partes diretamente envolvidas, comunidade científica, empresários do setor e governos. Inclusive, já formalizamos o pedido de uma mesa de debate com o Governo Federal na pessoa do secretário-executivo do MCTI, Luiz Antonio Rodrigues Elias.

Estamos aguardando resposta. O professor Dagnino já aceitou o convite. Ele tem atuado como professor convidado em várias universidades no Brasil e no exterior.
Graduou-se em Engenharia em Porto Alegre e estudou Economia no Chile e no Brasil, onde fez o mestrado e o doutorado. Sua livre-docência na Unicamp e seu pós-doutorado na Universidade de Sussex foram na área de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia.

* Colaborou Moacyr Pinto

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