NOSSO TRABALHO - ENTREVISTA: Heber Reis Passos, técnico do INPE

Pesquisas do INPE são prejudicadas em incêndio recente na Antártica

Apesar de o acidente ter comprometido 40% do Programa Antártico Brasileiro, os projetos de pesquisa do INPE estão entre os menos afetados.

Por Fernanda Soares

Na madrugada do dia 25 de fevereiro de 2012, um incêndio destruiu 70% da Estação Antártica Comandante Ferraz - EACF, uma base brasileira localizada na ilha do Rei George, Arquipélago das Ilhas Shetlands do Sul.

Para a construção de uma nova Estação, o Ministério da Defesa estima um gasto de R$ 100 milhões.

O Governo Federal já liberou R$ 40 milhões, como foi publicado no Diário Oficial da União
no dia 8 de março.

O recurso será destinado aos trabalhos de limpeza da área, remoção de resíduos e adaptação dos módulos que restaram.

A reconstrução está prevista para começar durante o verão de 2012/2013.

Atualmente, o INPE possui quatro Módulos de Pesquisa na ilha: o de Ozônio e Meteorologia, que fi cam perto da área atingida, cerca de 100 metros; o Ionosfera, a 300 metros; e o da Alta Atmosfera, a 1 Km.

No momento do incêndio, dois servidores do INPE estavam na Estação: José Roberto Chagas, da Divisão de Geofísica Espacial, e José Valentin Bageston, da Divisão de Aeronomia. Ambos já retornaram ao Brasil.

Para falar sobre os projetos do INPE em andamento na Ilha e as possibilidades de continuar as pesquisas, o Jornal do SindCT conversou com Heber Reis Passos, técnico
eletrônico do INPE que, nos últimos anos, já realizou 26 viagens para a Antártica.

Ele informa que, apesar de o acidente ter comprometido 40% do Programa Antártico Brasileiro, os projetos de pesquisa do INPE estão entre os menos afetados, pois os laboratórios utilizados estão separados do complexo da EACF.

Jornal do SindCT: Que pesquisas do INPE estavam em curso na EACF?

Heber Passos: Com experimentos para aquisição de dados, estavam em andamento os
seguintes projetos: Radiação Ultravioleta, no Módulo Ozônio; Diagnósticos de Anomalias no Meio Geoespacial, no Módulo Ionosfera; e Observações de ondas de gravidade na atmosfera, no Módulo de Alta Atmosfera. No Módulo de Meteorologia, entre 1985 e 2010 foi mantida a aquisição de dados de Meteorologia (Grupo CPTEC), mas o Projeto não teve renovação do CNPq e as atividades ficaram suspensas.

Como não foram disponibilizados recursos prometidos pelo INPE, a continuidade da série de dados ficou prejudicada.

Jornal do SindCT: Alguns jornais disseram que os projetos do INPE foram os menos atingidos... O que realmente foi perdido?

Passos: Os experimentos do INPE ficam instalados nos Módulos de Pesquisa, que, por serem afastados do complexo principal da Estação, não foram afetados diretamente pelo grande incêndio.

Contudo, com o desastre, toda a geração de energia elétrica que abastecia o complexo foi extinta. Após esgotada a capacidade de fornecimento de energia reserva dos Módulos, todos os experimentos ficaram inoperantes e não estão mais adquirindo e armazenando dados.

Os experimentos no Módulo Criosfera1, distante 2.500km ao sul da EACF, onde o INPE também tem atuação em colaboração com Projeto da UERJ/INCTCriosfera, não sofreram interferências e continuam operando.

Jornal do SindCT: O INPE recebeu oferta de alguma base de outro país para dar continuidade às pesquisas?

Passos: As coordenações dos Projetos de Pesquisas com atuação na EACF, através dos INCTs, estão buscando alternativas com outras instituições dos países que possuem instalações na Antártica. Tem Projeto que está tentando cooperação para tentar reativar equipamentos em outros locais. Mas a maior dificuldade agora é que a maioria das operações logísticas na Antártica está se encerrando. Outra dificuldade é que não basta somente instalar; precisasse de pessoal especializado para realizar a operação e manutenção, quando for necessário.

Jornal do SindCT: De que maneira as pesquisas poderão ter continuidade?

Passos: O grande incêndio pegou todos de surpresa, pois destruiu a única Estação de apoio a diversos grupos de pesquisa do Brasil.

As mais afetadas foram principalmente as de aquisição de dados contínuos, pois tinham uma grande dependência do fornecimento de energia elétrica da EACF e de suas instalações.

O INPE era a única instituição que mantinha diversos experimentos em contínua aquisição de dados por todo o ano, desde o início das operações da EACF.

O Projeto de Meteorologia – CNPq/CPTEC, que operou na EACF, tem a maior série de dados ininterrupta na EACF: 25 anos.

Agora teremos uma lacuna até que o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) consiga restabelecer condições de permanência e de fornecimento de energia elétrica. Mas o Programa não era só a EACF e muitos trabalhos continuarão, principalmente as pesquisas que podem utilizar os navios e acampamentos, bem como cooperações com outros países e instalações na Antártica.

Jornal do SindCT: Qual a previsão para retornar as pesquisas?

Passos: Acredito que teremos que aguardar de 2 a 3 anos para que o PROANTAR consiga restabelecer instalações na EACF que permitam apoio aos pesquisadores.

Não basta somente reerguer uma nova Estação, com melhores instalações e distribuição. É necessário reequipar todos os laboratórios e criar condições para apoio e permanência com segurança.

A EACF tinha suas deficiências e limitações, mas abrigava e facilitava o trabalho de boa parte dos pesquisadores.

Na semana seguinte ao acidente, a direção do INPE se reuniu com os coordenadores dos projetos e já se comprometeu a buscar recursos para a aquisição de equipamentos de energia sustentável para os Módulos de Pesquisas.

Jornal do SindCT: De que maneira as pesquisas do INPE na Antártica interferem na vida dos brasileiros?

Passos: Algumas pesquisas contribuem diretamente para entendermos melhor a relação atmosfera/oceano/Antártica e suas interações com o continente sul-americano, o que auxilia os estudos de climatologia e suas interferências no nosso dia a dia, tal como a previsão meteorológica e de correntes oceânicas, além da radiação ultravioleta. Outras pesquisas auxiliam, de forma indireta, na compreensão das interações do Clima Espacial na atmosfera da Terra e dos fenômenos da Alta Atmosfera.

Alguns experimentos mantêm séries históricas de dados, o que contribui para inúmeros estudos e uma melhor compreensão desse magnífico ambiente.

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