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EGITO: um ano da primavera árabe

A revolta é o primeiro passo para mudanças estruturais

Duas versões sobre as rebeliões no Egito: foram jovens da classe média conectados por seus Twitters e Facebooks ou um movimento que vinha tomando corpo ao longo dos últimos anos e que ainda não terminou.

Por Sheila Jacob

O final de 2011 marcou um ano da onda de levantes populares que tomaram corpo no Oriente Mé-
dio e acabaram com governos autoritários, movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe.

Em dezembro de 2010, jovens da Tunísia foram às ruas em protesto contra o ditador Ben Ali, que estava no poder há quase 25 anos e foi deposto após as manifestações.

O estopim foi o suicídio de Mohamed Bouazizi, jovem que ateou fogo no próprio corpo em protesto contra os maus tratos policiais. O fato deu origem a manifestações semelhantes na região, em países como Egito, Argélia, Bahrein, Iémen e outros.

Duas versões sobre as rebeliões no Egito: foram jovens de classe média conectados por seus Twitters e Facebooks ou um movimento que vinha tomando corpo ao longo dos últimos anos e que ainda não terminou.

“O Egito sempre se considerou vanguarda do mundo árabe. Depois do que aconteceu na Tunísia, os jovens egípcios se sentiram poderosos e com coragem para, em 25/01/2011, se reunir na praça Tahrir e exigir a saída de Mubarak.

Centenas de pessoas morreram nos embates contra a polícia”. Isso é o que conta o brasileiro Aldo Sauda, formado em Relações Internacionais e correspondente da revista Caros Amigos no Egito.

O jovem, que desde agosto do ano passado vem acompanhando de perto o que ocorre no país, participou de um debate no Rio sobre a luta de classes no Egito.

Também participou da mesa o cartunista Carlos Latuff, conhecido no mundo inteiro depois que suas ilustrações, encomendadas pelo Twitter, foram usadas nos protestos da praça Tahrir. No debate, Aldo esclareceu que o processo revolucionário atual possui duas versões.

A da chamada grande mídia, orientada pelas agências de informação norte-americanas, caracteriza o movimento como uma reunião de jovens de classe média conectados por seus Twitters e Facebooks.

Eles teriam ocupado a praça Tahrir de forma pacífica, derrubado o ditador e o país estaria caminhando para a democracia.

“Mas há uma outra versão, a dos egípcios, de que este foi um movimento que vinha tomando corpo ao longo dos últimos anos e que ainda não terminou. Um ano depois, a juventude e os trabalhadores ainda estão descontentes e mobilizados.

Não dá para saber aonde isso tudo vai dar”, disse, esclarecendo que estão reunidos jovens de movimentos diversos, desempregados ou subempregados.

No dia 25/01/2012 eles voltaram às ruas para comemorar um ano dos levantes que tomaram corpo no Egito. São jovens e trabalhadores que mais uma vez lotaram a praça Tahrir com protestos para exigir a defesa de seus direitos.

Isso porque, um ano após a derrubada do ditador Hosni Mubarak, o país continua mais ou menos na mesma situação de antes: alto número de desemprego, poucas perspectivas para a juventude e forte presença militar.

Trabalhadores nas ruas por democracia
Além da juventude, o movimento sindical egípcio também tem sido muito importante no questionamento dos caminhos que serão tomados.

“Os trabalhadores estão se organizando para exigir mudanças, já que a saída de Mubarak não garantiu autonomia e democracia para o povo egípcio”, analisa Aldo. Em 2011 foi criada uma central sindical e, apenas neste ano, cerca de 300 sindicatos foram criados.

“O Exército, que tomou o poder, transformou-se na instituição mais odiada pelos egípcios. A luta contra Mubarak hoje continua a mesma, mas contra os militares que assumiram o poder.

Antes admirados pela população, hoje eles repetem a violência e a repressão da polícia”, conta, ressaltando que as indignações ainda são atuais. “Neste tempo em que estive no Egito, vi que o processo de radicalização é extremamente rápido.

Os desafios são muito grandes nesse país, que é a peça central do mundo árabe. Os jovens estão dispostos para o enfrentamento na rua, mas ainda há pouca organização efetiva de um movimento. Para mim essa é a grande carência.

Por isso aposto no movimento sindical”, afirma Aldo, para quem pode-se esperar tudo nos próximos dias.

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