Entrevista

ENTREVISTA com Amaury Ribeiro Jr. - exclusiva para o SindCT

“As pessoas têm um verdadeiro pânico das privatizações na área de saúde”

O autor de A Privataria Tucana alerta que veículos de comunicação foram beneficiados durante o processo das privatizações. “Isso é claro e está provado. Por que eles gostam de defender o outro lado? Justamente porque se beneficiaram disso”, opinou.

Por Marina Schneider
e Sheila Jacob

Para o jornalista Amaury Ribeiro Jr., o sucesso de vendas de Privataria Tucana tem a ver com o tema. “As privatizações afetam diretamente a vida das pessoas.
Depois que lancei o livro fiquei mais indignado ainda porque fui ouvindo as histórias de quem foi massacrado pelas privatizações”, relatou.

Para ele “imprensa é medíocre porque repete o discurso reacionário de uma elite asquerosa, que rouba dinheiro do povo”. Confira a entrevista.

Jornal do SindCT: Por que você resolveu apurar as privatizações da era FHC? Qual seu objetivo?

Amaury Ribeiro Jr.: Eu trabalhava no O Globo no início da década de 2000 e começou a sair nas revistas que havia propina nas privatizações. Aí eu comecei a rastrear esse dinheiro. Mapeei uma parte e não consegui publicar no O Globo.
Outra parte, do Mendonça de Barros, eu publiquei no Jornal do Brasil e, depois, quando fui para a Istoé eu consegui entrar mesmo no assunto.
Eu entrei no caso do Silveirinha, da máfia dos fiscais e do Banestado. A CPI do Banestado terminou com um acordo, mas foi obrigada a me entregar toda a documentação. Isso me possibilitou ter todos os papéis que mostram, principalmente, as propinas das privatizações.

Jornal do SindCT: E o que você pensa sobre o sucesso de vendas do livro?

Amaury Ribeiro Jr.: Hoje eu não tenho nenhuma dúvida de que as privatizações afetam muito as pessoas. Nos lançamentos do livro eu tenho visto, por exemplo, um verdadeiro pânico das privatizações na área de saúde.

É uma coisa que eu quero ficar atento inclusive para contar essa história. A privatização afeta diretamente a vida das pessoas. Tenho perguntado sobre isso para todo mundo que traz o livro para eu autografar para tentar entender esse universo.
A venda das estatais afetou não apenas a vida das pessoas que trabalhavam e foram demitidas das companhias, mas daquelas que acreditaram nas promessas de que o país melhoraria com os leilões.

Jornal do SindCT: Você já sofreu alguma ameaça dos grandes empresário e dos políticos que você denuncia no livro?

Amaury Ribeiro Jr.: Não. Eles estão tentando me desqualificar. Até com piadas sobre coisas que fiz na época de estudante na Cásper Líbero em São Paulo. Estão tentando me desqualificar para, com isso, desqualificar o livro.
O conteúdo do livro eles não estão conseguindo desqualificar. Não chegam nem perto disso. Ninguém responde. Nem o PSDB, nem a mídia que o apoia. Eles não atacam.

Jornal do SindCT: Como você avalia a postura da mídia comercial?

Amaury Ribeiro Jr.: A imprensa hoje está calada. Agora a gente está furando esse bloqueio. A Record noticiou, muitos jornais e rádios do interior do Brasil todo me ligam.

Estamos quebrando isso aos poucos. O livro fala também da conivência deles (imprensa) com o candidato tucano no processo eleitoral. É por isso também que se dá o silêncio. As redes sociais foram importantes para divulgação do livro. A grande mídia ficou calada no início, mas os blogs furaram o silêncio da mídia.

Jornal do SindCT: Qual foi o papel da internet na divulgação e denúncia dos esquemas da “Era das Privatizações”, chamada por Elio Gaspari e por você de Privataria Tucana?

Amaury Ribeiro Jr.: Mostrar que a grande mídia não tem controle mais sobre os temas. Que para você vender um livro ou um disco você não precisa disso.

Quem me ensinou isso foi foi o colega Luiz Carlos Azenha, do [blog] Viomundo e que me auxiliou nesse processo de divulgação pela internet. A internet possibilita você mostrar a verdade e desmascarar as pessoas.

Jornal do SindCT: Você tem expectativa de que se instale mesmo a CPI das privatizações, relativa aos fatos que você denunciou?

Amaury Ribeiro Jr.: Se houver pressão dos movimentos populares, dificilmente a CPI não vai ser instalada. Essa CPI tem que ser aberta, para justiça do povo brasileiro. E vai ser instalada sim, porque os movimentos populares irão às ruas cobrar essa medida.

Jornal do SindCT: Uma vez instalada, quais você acha que serão os resultados concretos desta maré de denúncias de roubos aos cofres públicos que você relata?

Amaury Ribeiro Jr.: Muitos funcionários públicos capacitados, pessoas técnicas da área de inteligência financeira já me disseram que querem colaborar com a CPI. E a consequência vai ser mostrar que a roubalheira é muito maior.

Jornal do SindCT: E então vai chegar na imprensa empresarial que, até hoje, encobriu tudo o que você denuncia e documenta?

Amaury Ribeiro Jr.: Claro. Tem um livro que está saindo que mostra que uma revista é sócia do banco Opportunity. Outro blogueiro que faz ataques foi sócio de um ministro da privatização. Os próprios veículos de comunicação foram beneficiados com esse processo todo.

Jornal do SindCT: Você se preocupou com a linguagem antes de escrever o livro. Pensou em seus possíveis leitores, ao escrever o Privataria?

Amaury Ribeiro Jr.: Justamente. Mas não sabia que daria tanto resultado. Estou impressionado em saber como as pessoas entenderam. Já virou cordel, música... caiu no popular. Isso é muito bacana.

Jornal do SindCT: Durante o debate uma pessoa falou sobre a privatização na área da saúde em São José dos Campos, cidade que é governada há muitos anos pelo PSDB. Você pretende buscar mais informações sobre isso?

Amaury Ribeiro Jr.: Sim. Vamos buscar informações sobre privatizações no estado de São Paulo e no Rio. As pessoas estão apavoradas. O tema da saúde me sensibilizou.

São funcionários que estão trabalhando para ajudar as pessoas e vêem a roubalheira que está sendo implantada.

Jornal do SindCT: E sobre o risco atual da privatização de outros setores, como os institutos de pesquisa?

Amaury Ribeiro Jr.: Se acontecer, vai ser a repetição do que eu narrei no livro: as privatizações geram consequências desastrosas. O discurso é o mesmo: fala-se que vai melhorar, mas, na verdade, tudo piora. Os interesses privados passam a ser importantes, e não os do povo.

As pessoas acabam enlouquecendo nesse processo, tanto os trabalhadores, quanto os usuários. Foi assim com a eletricidade, com as telecomunicações, tudo ficou mais caro. A privatização dos aeroportos vai ser um verdadeiro caos.

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