Política e Economia

A PRIVATARIA TUCANA: quem ganhou e quem perdeu com as privatizações

Jornalista denuncia o desvio de milhões dos cofres públicos nas privatizações de FHC

Amaury Ribeiro, autor do best-seller A Privataria Tucana decidiu “seguir o dinheiro” e descobriu o que chamou de maior lavanderia de dinheiro do mundo

Por Claudia Santiago

O maior esquema de lavagem de dinheiro já detectado no Brasil se deu na privatização de empresas estatais durante o governo FHC, de 1995 a 2002. Isto é o que diz o livro A Privataria Tucana, escrito pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr.

O best- seller é uma grande reportagem com uma sucessão de denúncias, fartamente documentadas, de roubos aos cofres públicos realizados durante as privatizações do governo Fernando Henrique, quando o ex-governador do estado de São Paulo, José Serra, era o ministro do Planejamento.

O autor descreve a trajetória que o dinheiro ilícito fez, saindo dos cofres públicos, passando por empresas de fachada, e chegando, finalmente, a engordar fortunas pessoais.

Além disso, Amaury, através de muitos documentos até então desconhecidos do grande público, tece a teia dos grupos que venceram as privatizações da Vale, Embraer, Usiminas, Copesul, CSN, Light, Acesita e ferrovias.

Privatizações que foram precedidas por forte campanha midiática pela desmoralização do serviço público, pela demissão de milhares de trabalhadores e que foram feitas, em grande parte, através de financiamento público, via BNDES.

Além disso, o valor das empresas foi subvalorizado e as tarifas públicas foram aumentadas antes dos leilões.

Cadê o dinheiro? O gato comeu
Entre as denúncias está uma, segundo a qual, dos R$ 1,05 bilhão pagos pela CSN, apenas R$ 38 milhões entraram nos cofres do governo.

R$ 1 bilhão era formado por moedas podres. Ou seja, moedas que tinham um valor de mercado muito inferior ao valor de face.
Na página 65 está escrito: “o ex-tesoureiro das campanhas do PSDB recebeu propina de Jereissati, um dos vencedores no leilão da privatização da Telebrás.

Por meio do consórcio Telemar, Jereissati adquiriu a Tele Norte Leste e passou a controlar a telefonia de 16 estados”.

De acordo com Amaury, o Banco Opportunity, beneficiado durante as privatizações, aportou recursos em empresas de Verônica Serra, filha de Serra. Esta, por sua vez, teve uma empresa em sociedade com Verônica Dantas, irmã e também sócia do banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity.

O endereço da empresa? O Citco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas. A empresa do marido de Verônica Serra, Alexandre Burgeois fica no mesmo local. “De 2000 a 2002 Burgeois realizou operações financeiras que totalizaram a vinda de R$ 7 milhões do Caribe para o Brasil”, diz Amaury.

120 mil exemplares vendidos em dois meses
Lançado em 9 de dezembro do ano passado, A Privataria Tucana é, conforme aponta Leandro Fortes em reportagem da CartaCapital, “uma espécie de guia geral de tramoias e banditismo de Estado” durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, de 1998 a 2002.

Até o final de janeiro, 120 mil exemplares do livro já tinham sido vendidos. As 15 mil cópias, da primeira impressão, se esgotaram em 24 horas. Em quatro dias as vendas já alcançavam os 30 mil exemplares.

Trecho do livro A Privataria Tucana
A temporada de bondades com dinheiro público ultrapassou os preços baixos, os financiamentos, as prestações em 12 anos e as moedas podres.

Nos anos que e antecederam a transferência das estatais para o controle privado, suas tarifas sofreram uma sequência de reajustes para que as empresas privatizadas não tivessem “de enfrentar o risco de protesto e indignação do consumidor”.

No caso das tarifas telefônicas, aumentos de até 500% a partir de 1995 e, no caso da energia elétrica, de 150%. Tais custos ficaram com o Estado e o cidadão.

Mas a cereja do bolo foram os empréstimos do BNDES. Quem adquiria uma estatal imediatamente se habilitava a contratar financiamentos oficiais com juros abaixo dos patamares do mercado. (...) Comprada com moedas podres, a CSN foi contemplada com R$ 1,1 bilhão. E a Light, onde Serra bateu seu martelo, ganhou R$ 730 milhões.

O resultado de tudo isso é que, em dezembro de 1998, quando já haviam sido leiloadas grandes empresas como a Vale, Embraer, Usiminas, Copesul, CSN, Light, Acesita e as ferrovias, havia um descompasso entre expectativa e realidade.

Enquanto o governo FHC afirmava ter arrecadado R$ 85,2 bilhões no processo, o jornalista econômico Aloysio Biondi publicava no seu best-seller O Brasil Privatizado que o país pagara para vender suas estatais. Este pagamento atingira R$ 87,6 bilhões, portanto R$ 2,4 bilhões a mais do que recebera.

Reunindo sete itens que conseguiu calcular, Biondi chegou ao seu valor. Mais cinco itens, entre eles custo de demissões e compromissos com fundos de pensão, considerados incalculáveis, não integram a coluna das despesas.
Páginas 39 e 40 do livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr.

Sobre a privatização da Vale do Rio Doce
Apesar de termos privatizado 70% das nossas empresas estatais, de termos vendido o patrimônio público arrecadando cerca de 60 bilhões de reais, a dívida pública interna cresceu de 108 bilhões para 654 bilhões de reais entre 1995 e 2002, durante o governo FHC.
No mesmo período, a dívida externa cresceu de 148,2 bilhões para 227,6 bilhões de dólares. O preço vil alcançado no leilão da Vale foi de 3,3 bilhões de reais.

Em 2006, o valor era 100 bilhões de reais. O lucro da empresa em 2005 atingiu 12,5 bilhões, ou seja, quase quatro vezes o valor pelo qual a empresa foi vendida.

Estudos independentes realizados na época chegaram a avaliar a empresa em valores que superam 1 trilhão de reais. (Clair da Flora Martins é ex- deputada federal pelo PT do Paraná e uma das autoras da Ação Popular contra a privatização da Companhia da Vale do Rio Doce)

Sobre o autor:
Amaury é repórter, ganhador de dois prêmios Esso e quatro prêmios Vladimir Herzog. Faz parte do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos.

Já foi jornalista de O Globo e IstoÉ. Na passagem pelo Correio Braziliense, uma das pautas de Amaury foi relatar o assassinato de duas adolescentes na Cidade Ocidental, em Goiás.

Ao investigar o crime, o jornalista apurou que 150 jovens haviam sido assassinados nos arredores de Brasília em apenas seis meses.

Depois do episódio, Amaury foi transferido para o jornal O Estado de Minas. Atualmente é produtor executivo da TV Record.

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