Artigo

A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA e o Pinheirinho

Em São José dos Campos é crime ser pobre

O que aflorou com toda a sua crueza, em São José dos Campos de Concentração, foi uma questão que mais dia, menos dia, iria explodir.

Por Francisco Conde

Os imóveis desta cidade sofreram uma valorização dramática nos últimos anos, especificamente nos últimos dois.

Ora, isso pressiona os preços dos aluguéis: o proprietário passa a exigir um aluguel de acordo com o preço do seu imóvel.

Se o imóvel se valoriza, o dono passa a pedir mais alto pelo seu aluguel. Se o locatário não pode pagar, o locador pede o imóvel e prefere até mantê-lo fechado, aguardando alguém que possa pagar o valor “de mercado”. O antigo locatário, já no limite de suas possibilidades, sai desesperadamente à procura de um imóvel dentro das suas possibilidades.

Se não estiver morando em um imóvel dos mais simples e baratos, ainda pode ir para um pior, pagando o mesmo que pagava antes.

Mas se já estiver morando nos mais baratos, não terá para onde ir, pois estes ficaram inacessíveis para ele.

Para onde ele irá? Ele se inscreve na fila para comprar imóvel popular, subsidiado, mais barato e enquanto a fila não anda, ele tem de ir para algum lugar.

Fica sabendo do Pinheirinho, vai lá e é acolhido.

Muda-se para lá com o que tem e continua a esperar pacientemente a fila andar.

Mas esta não anda, ou melhor, anda para trás: aumenta cada vez mais. Reza para que se esqueçam dele e o deixem viver em paz.

Prefeitura ficou ao lado de sonegador de impostos
Mas aí aparece um dono, devedor contumaz de impostos, mas riquíssimo e poderoso.

Dono de uma empresa que se estabeleceu em SJCampos de Concentração, nunca contratou ninguém e faliu sem nunca ter produzido nada.

Mas quer o terreno. A prefeitura, que nunca o molestou cobrando os impostos devidos, que rechaça qualquer diálogo para declarar a área inutilizada de interesse social, acha bonito, toma-lhe o lado e o apoia.

O governo federal aparece com uma solução a custo zero para a prefeitura: ela mudaria o zoneamento do local, o governo federal compraria a gleba (o “dono” aceita negociar), e faria um projeto habitacional pelo programa Minha Casa, Minha Vida para o pessoal cadastrado. O governo do estado topa este acordo.

Mas o que faz o fascistóide do alcaide Joseense? Não comparece à reunião na OAB com os representantes do estado, da União, os advogados dos sem-teto e representante da Igreja.

Mesmo procurado na prefeitura, Cury não recebe estes negociadores, manda seu secretário de “desenvolvimento social” (seria patético se não fosse trágico dizer que em SJCampos de Concentração há uma secretaria dessas), que se recusa, em nome da prefeitura, a assinar o protocolo de intenções que abriria as negociações e sustaria a ação de despejo.

Mostram a intenção de haver o despejo, a sua crueldade e arrogância (e para mim, também a sua burrice cavalar). O resto, vocês estão vendo.

Viramos a cidade dos campos de concentração de gente despejada, onde falta tudo: água, colchões, roupas, cobertores, comida, remédios, espaço e até documentos pessoais. Nem falo de esperança: o que resta a estas pessoas que foram despejadas a bombas de gás lacrimogêneo?

É crime buscar um lugar para se morar? É crime furar uma fila que não anda há anos? É crime ocupar área não utilizada e devedora de impostos? Eu acho que tenho a resposta: em São José dos Campos de Concentração é crime ser pobre!

Franscisco Conde é físico, aposentado do INPE. Foi presidente do SindCT por quatro gestões

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