Entrevista

CONVERSA COM TATIANA MERLINO* da revista Caros Amigos

O INPE pode ficar fora de órbita

Risco de terceirização e privatização do Programa Espacial Brasileiro mostra quadro de desmonte do setor iniciado nas décadas de 1980-90

Da Redação
do Jornal do SindCT

Em maio deste ano, a jornalista Tatiana Merlino* fez uma longa reportagem sobre o Programa Espacial Brasileiro para a revista Caros Amigos. Falou com os diretores do SindCT e entrevistou longamente o gerente de projetos do INPE, Amauri Silva Montes, que está no instituto há mais de 40 anos.

Tatiana ouviu relatos apaixonados pelo trabalho dos Institutos, mas preocupados com seu futuro. Conheça um pouco da perspectiva da jornalista a partir dos depoimentos que ela colheu em São José.

Jornal do SindCT: Tatiana qual a síntese que você faz da sua reportagem no INPE e DCTA?

Tatiana: A condução do Programa Espacial Brasileiro está ameaçada de terceirização e privatização. Após duas décadas de esvaziamento dos órgãos ligados ao setor, com poucas contratações e salários defasados, o governo brasileiro vem estudando a inclusão do setor privado na execução e gerenciamento do programa espacial, hoje sob responsabilidade dos dois institutos.

Jornal do SindCT: Podemos resumir o perigo que ronda INPE e DCTA com a palavra privatização?

Tatiana: É isso que vem sendo sinalizado por Marco Antonio Raupp desde que assumiu a presidência da Agencia Espacial Brasileira (AEB), em março deste ano. Entre as mudanças que Raupp vem defendendo está a que permite que empresas possam ser prime contractors, exercendo a função integradora dos projetos de satélites e lançadores, hoje a cargo do INPE e DCTA. Prime contractor ou main contractor são os nomes dados à instituição executora responsável pelo projeto da missão espacial, que pode ser um órgão público ou uma empresa privada. Conforme Amauri explicou na época, o prime contractor é quem faz a concepção, todos os planos de desenvolvimento e contrata a indústria para fazer aquilo que deseja, da forma que deseja e é fi scalizado da maneira que deseja.

Jornal do SindCT: É verdade que já há várias empresas prontas para abocanhar os dois institutos? Isso aparece nas palavras de Raupp?

Tatiana: Sim. Em artigo ele defendeu a constituição de “uma empresa integradora”, capaz de fornecer sistemas espaciais completos (satélites, foguetes e sistemas de solo) e que favoreça a organização de uma cadeia produtiva de fornecedores e serviços do setor espacial, orientada para os mercados interno e externo. Mas, segundo Raupp, a ênfase na participação do setor privado não implicará em privatização do INPE ou do CTA.

Jornal do SindCT: Na sua longa entrevista com Amauri ele deu nome aos bois, a começar pela Odebrecht. É isso?

Tatiana: Amauri cita a compra da Mectron Engenharia (fabricante de mísseis e de produtos de alta tecnologia para o mercado aeroespacial) pela Odebrecht, que atua na área de engenharia civil e está entrando na área de defesa. Ele disse que foi uma das coisas que mais o impressionou e sobre a qual começaram a conversar no INPE. Para ele, a Odebrecht está querendo adquirir histórico na área de defesa. Amauri falou que, quando soube, “acenderam todas as luzes”, porque eles só entram onde há recursos, no caso, a área de defesa. E, talvez, a área espacial entrasse no pacote.

Jornal do SindCT: O presidente da AEB, Raupp, fala que INPE e DCTA apresentam resultados fracos.

Tatiana: O presidente da AEB Marco Antonio Raupp também vem criticando o Programa Espacial Brasileiro, que teria “um histórico de poucos resultados, atrasos e baixa prioridade em comparação com outras políticas públicas”. O próprio SindCT admite que há um atraso na entrega dos satélites, mas um dos motivos é o déficit de trabalhadores nos institutos, suspensão de concursos públicos para reposição da força de trabalho e salários defasados.

Jornal do SindCT: Para os servidores dos institutos o central é combater a ameaça de transferência da função de main contractor para a iniciativa privada?

Tatiana: As palavras do Amauri, com sua longa experiência, são claras. Ele afi rmou que não se pode vacilar na defesa estratégica de se manter a presença do INPE na gerência dos projetos de satélites como main contractor porque isso garante o controle e a tecnologia envolvida nas mãos do Estado. Para os servidores, um programa espacial forte requer instituições públicas com equipes de engenheiros e técnicos treinados e reciclados em instituições internacionais, laboratórios modernizados e financiamento adequado.

Jornal do SindCT: Uma das ideias básicas para defender o fortalecimento do INPE e do DCTA é garantia da soberania nacional. Você ouviu isso nas entrevistas?

Tatiana: Isso ficou claríssimo em todos os entrevistados. Amauri disse que o domínio da tecnologia é essencial tanto para a defesa quanto para o desenvolvimento do país. Segundo ele, se não tivermos domínio da tecnologia, pode-se fazer grandes coisas, como uma montadora de satélites, de foguetes, mas sem ter o controle da soberania do país. Entre as consequências da transferência da condução do programa espacial dos institutos do Estado para a iniciativa privada, está a “submissão absoluta” a quem detém a tecnologia.

*Tatiana Merlino é jornalista e repórter da Revista Caros Amigos. Contato: tatianamerlino@carosamigos.com.br

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