Nossa Pauta

ÁREA ESPACIAL: A lição de Montenegro não pode ser esquecida

Estratégia nacional deve conter recursos humanos e desenvolvimento tecnológico

A história da indústria aeronáutica brasileira é rica de ensinamentos, os quais devem ser relembrados no atual momento do Programa Espacial Brasileiro

Da Redação
do Jornal do SindCT

Poucos se recordam que diversas iniciativas de implantar a indústria aeronáutica brasileira foram tomadas e todas redundaram em enorme fracasso.

Foram, em sua maioria, baseadas na estratégia de se implantar fábricas de aeronaves em território brasileiro através do licenciamento de tecnologias.

Ou seja, fabricantes internacionais trouxeram projetos de suas matrizes e auxiliaram a implantação de linhas de produção no Brasil.

Os exemplos são muitos, entre os quais podemos citar a fábrica de aviões da Companhia Nacional de Navegação Aérea, que produziu mais de duas centenas do modelo PT 19 Fairchild, a CNNA, a Fábrica de Lagoa Santa etc. Há grandes méritos nesses projetos.

Mostram a determinação de se consolidar o setor aeronáutico no Brasil. O equívoco estava na estratégia.

O fato é que, apesar de hercúleos esforços de abnegados engenheiros e empresários, ao final da Segunda Guerra, a indústria aeronáutica brasileira retornava à estaca zero, com poucas exceções.

Destacam-se a Companhia Aeronáutica Paulista, construtora do modelo CAP-4 Paulistinha, que sobreviveu até a década de 50, e a Neiva, incorporada posteriormente pela Embraer.

Desenvolvimento da área espacial Exatamente nessa época, uma nova estratégia estava em elaboração.

Em 1944, o então tenente-coronel Casemiro Montenegro levava ao presidente Getúlio Vargas os detalhes.

Trazer professores do renomado MIT, implantar o ITA e, posteriormente, os institutos de pesquisa do CTA.

Foi exatamente num desses institutos, o antigo IPD, que o Bandeirante pode ser projetado e construído, dando origem à Embraer.

Essa história de sucesso é conhecida por todos. Segundo alguns historiadores, Getúlio Vargas perguntou ao tenente-coronel Montenegro, por que implantar o ITA.

Não seria mais oportuno e mesmo mais barato enviar os alunos ao MIT? Casemiro Montenegro respondeu categórico que se assim fosse feito, jamais o Brasil teria uma indústria aeronáutica.

Essa resposta mostrou o ponto fundamental de sua estratégia. Seguindo a sabedoria de Montenegro, a área espacial iniciou a formação de recursos humanos e desenvolvimento de tecnologias.

Consolidação veio com o INPE No caso específico de satélites e plataformas orbitais, a engenharia espacial foi consolidada no INPE em 1985.

Dois satélites tipo SCD´s foram construídos pelos engenheiros do instituto e colocados em órbita e ainda estão em operação, atendendo ao Sistema de Coleta de Dados.

Também, três satélites foram desenvolvidos em parceria com a China e colocados em órbita pelos lançadores chineses da categoria Longa Marcha.

O CBERS-1, posto em órbita em outubro de 1999, o CBERS-2 em outubro de 2003 e o CBERS-2B, em setembro de 2007.

No início de 2004, foi iniciado o desenvolvimento da nova geração de satélites em parceria com a China – CBERS 3/4.

Uma política industrial ousada foi adotada para o desenvolvimento dos subsistemas e equipamentos sob a responsabilidade brasileira. Todos esses subsistemas e equipamentos foram projetados e fabricados integralmente no país.

O lançamento do CBERS 3, satélite na faixa de 2 toneladas, está previsto para novembro de 2012.

Há diferentes tipos de satélites para diferentes aplicações, como meteorologia, comunicações, observação da Terra, navegação, ciência, vigilância e mesmo para testar novas tecnologias.

Entre esses, os satélites de comunicações podem ser destacados.

Em sua maioria, são colocados numa órbita denominada de geoestacionária, com raio médio de 36000 km.

O período orbital é de 24 horas, de tal forma que esses satélites permanecem “estacionários” sobre determinada região do planeta.

Por essa característica fundamental para comunicações, as posições nessa órbita são muito disputadas.

Nos anos 70, o Brasil passou a usar o sistema americano Intelsat.

Nos anos 80, o país adquiriu, através de licitação internacional, o seu primeiro satélite, o Brasilsat, operado pela Embratel.

Com a adoção das políticas de privatizações do governo nos anos 90, a operação desses satélites passou para empresas estrangeiras, como por exemplo, a Star One.

As autorizações para que essas empresas operem no Brasil, incluindo a regulamentação é feita pela Anatel.

Um satélite operado pelo Estado Desde essa época, a área de Segurança Nacional e Defesa tem reclamado pela necessidade legítima de um satélite que atenda adequadamente a suas exigências e que não seja operado por empresas comerciais.

A aquisição através de licitação internacional é, a nosso ver, o caminho mais adequado para atender a essa demanda.

O INPE e a AEB poderiam auxiliar na especificação desse satélite. Ocorre que, em vez de uma aquisição no mercado internacional, já realizada em outras épocas, tem sido divulgado que se estabelecerá no Brasil um fabricante de satélites.

A estratégia escolhida possui muitas das características daquela tentada no passado, a qual levou ao fracasso as várias tentativas de implantação da indústria aeronáutica.

A lição de Montenegro

Há ainda dois enormes agravantes.

Primeiro, o mercado de satélites, diferente do setor de aeronaves, é extremamente restrito, mesmo na área de comunicações.

O segundo e mais grave ponto é que toda a capacitação, já bem consolidada no país, parece estar sendo ignorada.

A possibilidade concreta de se estabelecer uma estratégia semelhante àquela que efetivamente estabeleceu a vitoriosa indústria aeronáutica brasileira está sendo desprezada.

Será que o exemplo dado por nossa história e a sabedoria de Montenegro foram esquecidos?

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