ENTREVISTA: Especialista fala da saúde física e mental dos trabalhadores

SindCT cria Núcleo de Saúde Ocupacional para prevenir doenças relacionadas ao trabalho

João Baptista Opitz Junior assumiu há alguns meses o Serviço de Medicina do Trabalho do SindCT. Ele é especialista em Medicina do Trabalho e doutor em medicina pela USP. Atua na área de Medicina Ocupacional, Forense, Responsabilidade Civil e Bioética.

Entre os livros que já publicou sobre estes temas está “Medicina do trabalho e perícia médica - visão cível, criminal, trabalhista e previdenciária”.

Por Claudia Santiago*

Jornal do SindCT: Doutor João, desde quando se pensa a questão da saúde do trabalhador? Há registros históricos?

João Baptista Opitz: Os primeiros relatos que demonstram preocupação com a saúde do trabalhador e a descrição de doenças relacionadas ou influenciadas por atividades laborais foram vistos já nas civilizações antigas, como na egípcia, e posteriormente, na judaica e na greco-romana. Apesar destes relatos, muitos autores consideram o médico italiano Bernadino Ramazzini (1633-1714) como o “pai da Medicina do Trabalho”.

Jornal do SindCT: Quais são os principais problemas de saúde enfrentados por trabalhadores da área de ciência e tecnologia, mais especificamente dos trabalhadores do INPE e do DCTA?

João Baptista Opitz: Como assumimos o serviço de Medicina do Trabalho junto ao SindCT há aproximadamente três meses não temos ainda uma estatística técnico-científica, que possa definir quais são as principais e mais incidentes doenças nas duas instituições, o que pretendemos fazer em breve. Já temos metodologia para gerarmos tais estatísticas. Porém, existem dados estatísticos relacionados à incidência das principais doenças ocupacionais no anuário da Previdência Social, de 2008. Não existem tais dados exclusivamente para servidores públicos. No livro “Acidentes do Trabalho e Doenças Ocupacionais” editado em 2010, pelo SINDCT, são apontadas como resultantes da atividade laboral doenças de pele, nas cordas vocais e da laringe, traumatismos de coluna e troncos, episódios depressivos, lesões de ombro e afins, perdas de audição, dentre outros.

Jornal do SindCT: Como prevenir?

João Baptista Opitz – Primeiramente teríamos que ter um levantamento técnico-científico fidedigno e específico dos riscos a que são submetidos cada trabalhador em seus postos de trabalho.
Somente assim, poderíamos comparar tais riscos com as incidências de doenças, o que também obrigaria a instituição a ter dados estatísticos de incidência de patologia, para que se pudesse após estabelecimento da razão direta de causa e efeito, entre risco no posto de trabalho e doença (nexo causal), agir na proteção do meio ambiente de trabalho com medidas de proteção individual ou coletiva do trabalhador. O Núcleo de Saúde Ocupacional criado pelo SindCT é um grande passo nesse sentido, uma vez que começaremos a ter sob o aspecto técnico e médico, conhecimento de condições adversas a que são submetidos os trabalhadores no exercício de suas atividades, não permitindo, assim, “que a sujeira seja escondida embaixo de tapetes persas” .

Jornal do SindCT: Quando e de que forma deve ocorrer a readequação de trabalhadores na função após afastamentos por motivo de saúde?

João Baptista Opitz: No momento em que tiver condições de retomar seu posto de trabalho, sem estar submetido aos riscos que ocasionaram o afastamento. Quando isto não nos for possível, deverá ser readaptado em posto capaz de não tirar-lhe ou agravar-lhe a saúde.

Jornal do SindCT: De acordo com a OIT, em todo o mundo, cerca de 270 milhões de trabalhadores são vitimados em decorrência de acidentes de trabalho todos os anos. Como é esta situação no INPE e no DCTA? Há registros de acidentes devido à falta de uso de Equipamentos de Proteção Individual?

João Baptista Opitz: Estas estatísticas traduzem a relação capital-trabalho no mundo contemporâneo ainda nos dias de hoje. Quanto ao INPE e DCTA, como já dissemos, não temos ainda registros oficiais. Observamos que muitos acidentes poderiam ser evitados se considerássemos e tivéssemos levantamentos específicos por postos de trabalho, para o desenvolvimento de políticas de segurança buscando a melhoria do meio ambiente de trabalho.

Jornal do SindCT: Qual é o papel dos sindicatos na defesa e garantia da saúde dos trabalhadores?

João Baptista Opitz: Ao Sindicato cabe utilizar-se de todos os meios para garantir a integridade física do trabalhador. Deve emitir as Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT) quando houver negativa do empregador. Por isso o SINDCT criou o Núcleo de Saúde Ocupacional do Servidor, do qual sou coordenador. A principal finalidade é atender e verificar a saúde ocupacional do trabalhador e determinar, quando for o caso, nexo de causalidade entre as atividades exercidas pelo servidor e os males de saúde que porventura tenha. Nosso Núcleo atende aos servidores que suspeitem de terem adquirido doença ocupacional. É nossa obrigação estabelecer o nexo-causal, caso exista, encaminhando-o ao departamento jurídico, para que se procedam de forma administrativa ou até mesmo judicial em prol do servidor, com a consequente emissão de CAT, quando necessário se faça.

Jornal do SindCT: Existe alguma queixa universal, inerente ao trabalho, que independa da atividade?

João Baptista Opitz: Não. É difícil colocarmos todos os trabalhadores num único contexto. Cada atividade apresenta peculiaridades e características únicas. Em nossa prática diária observamos um aumento signifi cativo de queixas relacionadas à saúde mental dos trabalhadores, mas a incidência varia de acordo com a categoria profissional.

Jornal do SindCT: Há dados sobre a ligação da atividade de trabalho com doenças psicológicas, como depressão, síndrome do pânico e outras? O que dizem?

João Baptista Opitz: Sim. Muitos estudos têm apontado para uma relação entre a atividade profissional exercida sobre condições estressantes, vexatórias e até mesmo humilhantes, e as patologias psiquiátricas. Em grande parte dos trabalhadores adoecidos com transtorno mental podemos notar um componente do local e da situação de trabalho que pode ter ocasionado ou agravado uma patologia mental. O grande desafio em se tratando de doenças mentais e trabalho é a forma de constatação e dificuldade em se estabelecer um nexo causal entre aquela doença e a atividade profissional do trabalhador. Muitas doenças mentais apresentam causas desconhecidas ou pouco definidas, o que torna o trabalho do médico que lida com estes trabalhadores ainda mais importante e com responsabilidade.

Jornal do SindCT: O assédio moral interfere na saúde do trabalhador? De que forma?

João Baptista Opitz. Sim, existe hoje muito bem estabelecida a influência do assédio moral na saúde dos trabalhadores, que terão susceptibilidades variáveis a esta “violência”. Muitos irão achar normal, outros poderão ter transtornos psicológicos ou psiquiátricos, sendo este tema uma importante causa de absenteísmo em nossos dias.

*Colaboraram:
Marina Schneider
e Sheila Jacob

Compartilhe
Share this

testando