CONVERSA COM O EX-DIRETOR DO INPE: Luiz Carlos Moura Miranda

Engenharia e ciência espacial é singularidade do INPE

Em meio a quatro ex-colegas de trabalho, Luiz Carlos Moura Miranda fica à vontade. Ex-diretor do INPE (2001-2004), falou das atividades de sua gestão com muita afeição e certo cuidado.

Sempre com o mesmo apreço, fala de seu doutorado em Oxford e da parceria com Sérgio Resende, que depois seria Ministro da Ciência e Tecnologia, na criação do Departamento de Física em Recife. Lembra ainda de suas passagens pelo IEAv, pelo DCTA, e de sua chegada ao INPE, em 1985.

Participaram Leandro Uchoas, Fernanda Soares, Pedro Antonio Cândido, Amauri Montes, Luiz Elias Barbosa e Francisco Conde.

Jornal do SindCT: Como se deu a sua chegada à direção do INPE?

Miranda: Foi criado um Comitê de Busca. Eu me aposentei em 1998 e fui para o Chile trabalhar na Universidad de Concepción. Fiquei lá um ano e alguns meses e voltei para Maringá. Não pretendia sair de lá. Foi quando surgiu o primeiro Comitê.

Jornal do SindCT: Em qual governo?

Miranda: Ainda era Fernando Henrique, 2001. (Ronaldo) Sardenberg era o Ministro (da Ciência e Tecnologia). Houve o Comitê de Busca e várias pessoas entraram em contato comigo, sugerindo que eu me inscrevesse.

Jornal do SindCT: O senhor ficou na direção do INPE durante quatro anos. Poderia fazer um balanço deste período?

Miranda: Eu só aceitei esse desafio porque era uma época crítica para o pessoal que estava no INPE. Na minha proposta para o Comitê de Busca, a minha ponderação foi em cima do seguinte: o que é singular no INPE? A Engenharia Espacial e a Ciência Espacial. Singular não somente em competência, porque isso tinha nas outras áreas também. É a singularidade no contexto nacional. É a engenharia espacial e a ciência espacial. E as outras áreas? Estão relativamente bem distribuídas no país. A nossa engenharia estava, quando eu cheguei, extremamente desarticulada. Não era brincadeira. Havia falta de pessoal. O CBERS estava numa total descrença. Então, o foco foi esse. Apesar de ter passado dez anos, eu não acho que o foco tenha mudado. Se a gente fugir disso aí, a gente vai se autoflagelar.

Jornal do SindCT: Em relação ao CBERS, você conseguiu vencer a descrença da China, certo?

Miranda: Veja que coisa curiosa. Em outubro de 2003, temos o lançamento do CBERS 2. A assinatura do acordo para a continuação do programa CBERS, com a construção de dois novos satélites – os CBERS-3 e 4, aconteceu em 2002, portanto antes do lançamento do CBERS 2. Isso se deu porque os chineses sentiam certa confiança no governo. Estava um ambiente virtuoso. O lançamento em 2003 ocorreu perfeitamente.

Jornal do SindCT: Qual a sua opinião sobre a Lei das Licitações (8.666)?

Miranda: Eu não tenho nada contra ela. Mas ela exige que você trabalhe mais. Só isso. Ela não é impeditiva de coisa nenhuma. Na verdade, seguindo- a, ela é uma lei muito boa. Para você cumprir a Lei 8666, você tem que se dedicar, seguir passo a passo, saber o que você quer, em primeiro lugar. Ela demanda a tua honestidade de projeto e de processo. Se você quer enganar, aí fica complicado. Toda lei, quando você quer enganar, fica complicada. Porque ela é feita com o pressuposto de que o indivíduo quer sair daqui e chegar ali. Tem uma rota utilizada. Quando eu vejo as pessoas reclamarem da lei, eu fi co irritado. Porque nós não tivemos dificuldade nenhuma com ela.

Jornal do SindCT: Ao analisar licitações, vocês também tinham analistas.

Miranda: Licitação dá trabalho. O INPE tinha um histórico de que tudo quanto era licitação não ia para a frente. Esse foi, na década de 1990, o grande atraso. Não se estava fazendo o projeto muito claro e se queria uma licitação facilitadora.

Jornal do SindCT: Tenho ouvido muito que o INPE não está renovando seus quadros.

Miranda: Isso é trágico.

Jornal do SindCT: Não estão realizando novos concursos. A gestão atual está mudando os rumos do instituto. Qual a sua avaliação?

Miranda: Bom, eu te falei da nossa estratégia inicial. Trabalhar naquilo em que a instituição é singular no contexto nacional, definindo áreas. (Na época), o instituto estava com perdas de pessoal. Do pessoal contratado, 63% eram engenheiros. É mais do que o dobro do que tinha sido contratado na década de 1990. Mas era o que precisava. Agora, passaram-se dez anos, e a população envelheceu. E aí você tem que repor. Como, depois que todo mundo se aposentou? O velho tem algo a transmitir. Uma geração tem que ser sobreposta para poder seguir sem ruptura. Você tem que se preocupar com o lugar onde quer chegar; mas você chega lá com pessoas; não com máquinas.

Jornal do SindCT: Você acompanhou esse processo do Marco Antônio Raupp, presidente da AEB, em propor a fusão da agência com o INPE?

Miranda: Eu sempre defendi que, no limite, a situação ideal é a Agência ter seus diferentes institutos. Mas como é que você vai caminhar pra isso? Não é por um decreto. Por outro lado, deve-se institucionalizar a AEB.

Jornal do SindCT: Você estava falando sobre a engenharia. Há essa questão do lançador ciclone IV (Brasil- Ucrânia). Houve uma polêmica sobre como o dinheiro irá para esse projeto. Qual a sua opinião sobre isso?”

Miranda: Nunca mergulhei nesse assunto, então vou falar pelo sentimento. Eu acho uma grande oportunidade para o país. A Ucrânia teve um papel fundamental com os lançadores da antiga União Soviética. Basta ver a lista dos países importantes nessa área. Rússia, EUA, países da Europa, China, Japão, Índia, Israel, Brasil, Irã e Coreia do Sul. A China aprendeu com quem? Com a Rússia. A Índia aprendeu com quem? Com a Rússia. Israel é uma mistura de Rússia e EUA. O Irã aprendeu com a Rússia. Coreia com os EUA, Japão também. Quem fez a China e a Índia foi a Rússia. Então, o único país com que se poderia cooperar, com certa autonomia, era a Rússia. A Índia conseguiu, e a China também. Mas hoje, os russos vendem. Portanto, a Ucrânia é um processo de cooperação que eu sempre vi com muito bons olhos.

Jornal do SindCT: Mas é vedada a transferência de tecnologia.

Miranda: Eu sei. As relações internacionais não diferem das pessoais. São relações humanas, entre seres humanos. Você faz uma compra de produtos sensíveis e jura que não vai entregar tecnologia. Mas você chega na sala de uma determinada pessoa – e a gente conhece muitos casos desses – com quem tem um certo relacionamento. Então você diz que queria saber mais sobre um determinado projeto. A pessoa responde: “eu não posso te entregar. Eu vou sair da sala. Se você for lá, pegar o projeto, copiar e colocar de volta, eu não estou vendo. Não te entreguei...” É assim que funciona. Ele jamais vai dizer que entregou.

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